quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Zé Sereno, 62 quilos de melancolia
O coração desse pobre soldado vinha batendo meio coisado, não existia consolo para reduzir sua disritmia, não existia travesseiro suficiente para cobrir seus sonhos tortos, nem cobertor para acalentar seus devaneios, nem viagens para fugir do mundo.
Entre um copo e outro, o peito do infeliz emitia um estranho ruído. De vez em quando na mesa, a gente escutava um estranho zumbido. Eu tinha medo de acompanhá-lo numa embriaguez mútua como sempre fazíamos nos bons tempos. Desde que ela foi embora, assim, sem mais nem menos mesmo, no auge da paixão apesar dos dias todos transcorridos, ninguém mais parece estranhar quando o pobre se derrete e chora. Estava se tornando um hábito. E eu estava terrivelmente mal por não ter condições de ajudá-lo, meu grande camarada de tantos tempos agora parecia ter se entregado. Não tinha como animá-lo, ele acabava sempre tudo com um discurso inconformado, e todos acabavam concordando. Não havia como relutar contra seus argumentos, o coração sempre acerta quando colide com a razão.
Zé Sereno optou se distanciar de nós amigos, pelo que consta iniciou uma fase negra da sua vida. Álcool já era nosso costume, apenas o volume ingerido que assustava, e segundo as más línguas, o pobre soldado estava no ácido. Zé Sereno não era mais o mesmo, era apenas sua sombra. Eu tentava me lembrar como ele era sem o ácido, como ele era sem o litro de conhaque, mas foi tudo apagado da minha mente. De Zé Sereno só lembrava de sua sombra.
Foram alguns longos dias e ele reapareceu, no mesmo bar, em nossa mesa. Sua aparência estava melhor, apesar de sua pele relativamente flácida para seu sangue jovem e dos ossos da maçã do rosto visíveis. Conversamos um pouco sobre coisas alheias a tudo isso, alguns vezes sua feição esboçava alguns sorrisos. Depois de algumas horas ele me contou que estava superando tudo isso: "A melhor maneira de esquecer
uma mulher, é transformá-la em literatura". Curioso, jamais tivera pensando nisso, mas fazia muito sentido.
O convalescente Zé Sereno escrevia como um louco. Eu li um pouco de seus rascunhos. Incrível, como a arte pode dar dimensões ricas e belas a uma vida tão acidentada, recheada de rancor e amargura?
Suas ambições literárias eram grandes demais, e potencial, no meu ponto de vista, tinha tanto que sobrava. Cada letra, cada palavra reproduziu em mim sintomas únicos, intensos. Não havia como ler rapidamente, era preciso degustar aos poucos, para dar tempo de digerir toda a informação e sentimentos envolvidos naquilo. Eu nunca soube desse talento nele, acho que nem ele mesmo sabia.
Zé Sereno parece agora ter superado seus 853 dias, tem um agente da editora trabalhando dia-a-dia com ele. Como seu trabalho caiu no gosto da editora, está tendo muito incentivo em publicidade e a tiragem inicial planeja vai além do que a média dos novos escritores.
O filósofo espanhol Ortega Y Gasset uma vez escreveu: “eu sou eu e minhas circunstâncias”. Já o poeta Fernando Pessoa gostava de dizer que havia “um eu profundo e os outros eus”. Zé Sereno não acredita
nesses pensadores, tornou-se excêntrido demais para isso. A diferença é que agora ele pode.
E o melhor de tudo, sempre que podemos estamos ainda naquela mesma mesa.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Lolita
Sentir todos os dias a solidão rastejar na minha pele como um ar frio adentrando as mangas do casaco até chegar ao ventre, parece uma doença. A solidão é também um mal físico, não só emocional. Carregar esse fardo consigo dia após dia infecta a vida e tentar disfarçá-la com mimos, certas "companhias" e bebidas pode adiantar a doença para uma fase terminal.
Tenho conhecido pessoas novas, algumas mulheres interessantes, outras nem tanto. Não é um ato de busca, é só de liberdade, uma liberdade mental do tipo que te faz frequentar lugares diferentes com pessoas mais diferentes ainda. De todas as pessoas que conheci, destaca-se uma certa mulher. Não é o tipo de pessoa que teria interesse, apesar das curvas. Mas seu charme provoca em mim os sentimentos mais carnais. Seu tom de voz sedutor, seus lábios carnudos, seus cabelos negros e lisos, relativamente curtos como os de Lois Lane na década de oitenta, seus olhos brilhantes, redondos e absolutamente negros como o breu da noite mais sombria que possa imaginar. Tudo isso é muito provocativo. E o que ainda pior, a reciprocidade do afeto notada em cada conversa, ligação ou mensagem de texto. Gente assim é Deus quem faz, mas o diabo é quem tempera.
O ideal seria evitar um envolvimento, ou até mesmo me afastar. Há aquele ditado que diz algo como "essa mulher é chave de cadeia". Por outro lado há aquele em que diz "a melhor maneira de se livrar de uma tentação é cedendo". Prefiro este último.
Convidei para sair uma vez, outra vez e mais uma vez. Estávamos cada vez mais ligados, eu atento a cada suspiro, ela curtindo os momentos despreoculpadamente. Ainda não havia acontecido nada, não por ausência de desejo. Na verdade estávamos nos prendendo para não arrancarmos o pescoço um do outro, tamanha euforia que corria em nossos sangue juvenil a cada despedida. Ambos sabíamos que era inevitável.
De todos os encontros um foi mais íntimo. Esse último. Ela veio para meu apartamento, todos os amigos de república estavam em suas respectivas cidades. Era só eu, ela, um bom vinho que havia comprado para ocasião e um filme (Lolita, baseado em romance do escritor russo Vladimir Nabokov, publicado em 1955 pela primeira vez).
Em nosso quarto ou quinto gole de vinho, nos vinte primeiros minutos de filme, ela virou seus dois negros olhos para mim, deu um sorriso com o canto da boca e retornou para o filme. Evidentementemente que não consguia mais prestar atenção no filme (já o tinha assistido três vezes na versão de 1997 dirigida por Adrian Lyne e outras duas na primeira versão, a do famaso diretor Stanley Kubrick, em 1962). Se havia alguém cauteloso ali do lado dela, esse alguém não existia mais, toda a racionalidade foi perdida no ato.
Depois de mais uns quinze minutos, ela já estava sob meus braços, e num movimento brusco posou seu corpo em cima do meu, me surpreendendo com tamanha agilidade e com seu poder de dominação. Começou a rir para mim, mas sem amostrar os dentes, fitando-me com os seus grandes olhos negros e retirando com sua mão direita uma mecha de seu cabelo que ficara entre as lábios. Eu estava absolutamente sem ação, exceto pela minha euforia que agora já era perciptível. Retribuí o sorriso numa tentativa de amenizar minha face de surpresa e levando por menos toda minha euforia. Ela se aproximou do meu peito. À essa altura minha camisa de botão já se encontrava semi-aberta. Chegou um pouco mais perto do meu rosto e com um toque sutil encostou seus lábios nos meus e os retirou imediatamente, voltando a fitar-me com seus olhos, agora mais brilhantes do que nunca. Minha mão direita passeou pelos seus cabelos, nesse instante senti um calafrio vindo de seu ventre, e quando finalmente tentei tomar posição da situação, ela recuou e retornou a vidrar seus olhos no filme e sua mão na taça de vinho. Não tive outra escolha, a não ser acatar tudo aquilo. Ela venceu, tinha exercido todo o domínio sobre mim.
Continuamos com o filme e o vinho. Havia selecionado o filme por sua história fantástica, seu poder atrativo e pelas cenas um pouco mais fortes, evidentemente. Só não iria prever que agora eu seria o professor de poesia francesa Humbert e ela Dolores Haze (a Lolita do filme, que apesar da idade tem sob o professor completo domínio). Se fosse para ser como no filme o final, teria escolhido outro. A primeira garrafa havia acabado, iniciamos a segunda enquanto o filme mal tinha chegado na metade. O tempo passava muito lentamente. Confesso que estava tenso. Nunca ninguém provocou tamanho sentimento de submissão em mim, mas já era tarde demais, não tinha como voltar e mesmo que tivesse, não voltaria.
Finalmente o filme terminou. Conversamos um pouco sobre o filme. Fiz uma comparação sarcástica, porém bem-humorada sobre ela e Lolita. Ela sorriu. Procuramos algo na geladeira para comer (eu sei, nada romântico). Achamos queijo e presunto. Cortamos em rodelinhas para nós petiscarmos com auxílio de um palito. Enquanto terminávamos o vinho, liguei o som. Num volume bastante confortável coloquei o álbum The Blues Never Die (1981) do cantor e gaitista Charlie Musselwhite. Pronto! Tudo perfeito. Um bom vinho, meia luz (mesmo com o final do filme deixei a luz propícia), blues e euforia. Bastante euforia.
Com um pouco de humor fui até ela, primeiro encostei meu rosto em seu pescoço enquanto ela me abraçava. Sua mão esquerda veio até meu queixo, erguendo-o. Agora seus lábios estavam na altura dos meus. Desta vez fui eu quem encostou nossos lábios sutilmente, retirando-os imediatamente quando percebi que ela ganhara euforia com aquilo. Estava tentando agora, não dominar a situação, mas chegar no mesmo nível, pelo menos. Nossos corpos ficaram quentes o bastante para aquela noite fria. Ela segurou minha mão, fazendo-a deslizar nas suas curvas. Enquanto minha mão subia desabotoei a parte superior de sua blusa, deixando um espaço suficiente para retirá-la sem complicações. Ela usava suas duas mãos, mas não as controlavam muito bem, pois precisei ajudá-la para desabotoar o resto da minha camisa. Em seguida ela retirou sua blusa, amostrando seu sutiã de cetim branco. Éramos um do outro.
Ela segurou minha mão esquerda, me puxando até o quarto.
Me empurrou até a cama e trancou a porta.
No outro dia acordei cedo, mas não abri os olhos. Imaginei que foi um sonho ou que ela não estaria mais lá. Fui surpreendido com sua mão sob meu peito e com uma pergunta: "Acordou?". Assenti com a cabeça e perguntei como ela descobrira. Ela disse que sentiu a mudança de minha respiração. Nesse momento pensei que ela fosse dizer alguma coisa brega, mas felizmente não o fez. Apenas ficou em silêncio, mirando meus olhos com seus vivos olhos negros. Não poderia ter sido melhor.
Jorgin, O Maneiro
sábado, 15 de janeiro de 2011
- E agora? - E agora estou bem.
O remédio também não sei, mas o exílio fez muito bem, obrigado. Certos lugares podem funcionar como uma Unidade de Tratamento Intensivo. Olinda foi minha UTI. Certos amigos parecem a equipe de Dr. House do seriado americano. Eles sentam, vêem os sintomas, os órgãos atingindos e o que mais couber. E só depois ajudam. Cada um com parcela de contribuição, assim como um time. Agora não me pergunte mais nada, estou satisfeito com o resultado e isso para mim basta.
Você que gostou de ver minha doença, não parece conformado com minha cura. Por que tantas perguntas? Por que querer me ver sangrando lentamente? Estou bem agora, não precisa mais de tudo isso.
Depois dessa minha fase, ainda tenho (in)sanidade para os sonhos. Antes murchos como maracujá velho, agora parecem mais maçãs lisinhas, coradas e doces.
As ambições? As ambições são poucas, mas são intensas e sadias. Me assustam essas suas perguntas, está parecendo querer me colocar contra a parede. Não precisa se referir a mim nesse tom grosseiro. Bem, está certo, eu respondo essa. Eu só queria ter a chance de interpretar o Capitão Garfo (com direito ao bigode postiço, capa vermelha, chapéu semi-pontudo preto com uma pena vermelha na extremidade, sotaque carregado e rígido e, na ponta de cada mão, escondidos sob as mangas compridas, um garfo e uma faca) para meu herdeiro birrento sem vontade de comer. Ou colocar as bonecas horríveis da Barbie no fundo do congelador enquanto incentivo à brincar pé-de-barra com os moleques na rua. Adoraria ver o garoto com a ponta do dedão ensanguentada por uma topada no paralelo da pracinha enquanto jogova bola.
Veja bem, o sol já nasceu para mim. Não é mais necessário isso. Estou bem, cada vez um pouco melhor. Você também. Então vamos seguir assim, cada um nasceu para aquilo que hoje é. Não pode mais interferir em mim, nem eu em você.
Não fique com tanta raiva, você ainda pode ser meu amigo (no dia em que tiver enjaulado).
Adeus,
Jorgin, O Maneiro.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
O Circo da Solidão
Reza a lenda que um dia, num circo longíquo de um interior nordestino, os dois melhores artistas do espetáculo se apaixonaram: O Palhaço e A Bailarina. Ou pior, O Palhaço se apaixonou pela Bailarina.
No começo O Palhaço tentava conquistá-la com sorrisos. Mas em sua graça não havia glamour. Pobre Palhaço. Todavia, A Bailarina soube reconhecer seus esforços, e ainda, ver nele outras atribuições brilhantes. Poderiam formar um belo casal e até que um dia finalmente formaram. Um trágico erro para o picadeiro, mas eles ainda não sabiam.
A Bailarina era bela, adimirável, facilmente apaixonante. Havia sutileza em seus movimentos, muitas curvas, e elegância. Tinha muito carisma e um sorriso que outrora ninguém mais veria outro como este.
O Palhaço, apesar da profissão, não tinha muito dom para as piadas, todavia A Bailarina ria, elegantemente sorria. Suas piadas pareciam inteligentes demais para seu público, mas não para A Bailarina. Ela compreendia tudo, e o melhor, gostava. Inerente a sua profissão, O Palhaço não tinha jeito algum com as mulheres. Nunca soube disfarçar sequer um arroto. Mas esse era o seu charme. O Palhaço era natural, e apesar de seu disfarce, era um ser humano completamente sensível e solidário.
Tudo ocorrera de modo perfeito. Perfeito demais para ser real. Os dois agora eram um só. Passavam a madrugada contando estrelas deitados no gramado verde e aconchegante, um pouco húmido pelo clima noturno, de uma modo bastante confortável. Suas cabeças, deitadas sob a grama, ficavam unidas e seus corpos em lados opostos. Adoravam fazer isso pois poderia conversar sussurando, olhar o céu carregado de estrelas e no ápice da paixão, se beijariam. A Bailarina até absorveu um pouco de humor para suas apresentações, assim como O Palhaço, que agora aprendera a ser mais sutil, porém sem perder o humor.
Ambos caminhavam para o caminho certo, o auge da união. Faziam muitos planos. Planos até demais.
Como nada nesse mundo pode ser belo o suficiente... Um novo integrante faz parte da trupe: O Mágico.
Ele não era mágico coisa alguma, fazia apenas ilusionismos chulos, mas a plateia adorava. Conseguiu conquistar cada vez mais adeptos e o circo tivera que acrescentar mais assentos. Todos o adoravam, exceto O Palhaço. O Palhaço sabia que O Mágico sempre tinha uma carta na manga. Era pobre de espírito e ninguém mais via, apenas O Palhaço. Estava se sentindo uma estrela no picadeiro. Seu camarim agora era o melhor.
A Bailarina sucumbiu aos ecantamentos do Mágico, pois este, possui a arte ilusionista da sedução. A sedução dele possui uma textura apenas externa, baseado em doces palavras, palavras que O Palhaço jamais dissera para Bailarina, mas sempre sentira profundamente mais que qualquer humano poderia pronunciar com qualquer que sejam as vogais e consoantes deste ou de qualquer planeta.
Pobre Palhaço, na noite anterior estava com as pupilas dilatadas de tantas juras de amor. Tudo em vão. Sumiu assim, rapidamente. Renegado pela Bailarina, O Palhaço sente a dor da traição, não essa traição carnal que humanos não cansam de comentar. Mas uma traição singela, que fez seu coração ser perfurado por milhões de pequenas agulhinhas, cujo efeito seria capaz até de derrubar o mais sensato e racional dos humanos.
Borrou sua maquiagem de tanto chorar. O Palhaço perdeu seu encanto. Já não tinha mais graça. Estava difícil manter o público nos assentos até que um dia simplesmente desistiu. O Palhaço queria sumir. Esquecer tudo aquilo, e recomeçar uma nova vida. Quando criança aprendera o ofício de sapateiro. Poderia ser um agora, mas lá no fundo sabia que o único sapato que sabia concertar eram os seus sapatos enormes, feitos no tamanho ideal para fazê-lo tropeçar mesmo quando não queria. Por tanto se dedicar ao esquecimento de sua desilusão, mais pensara nela. É natural. Numa reflexão, ele percebeu que os fracos e oprimidos fogem, pois assumem a derrota. O Palhaço definitivamente não era fraco. Era um vencedor, e um vencedor não se entrega, nao foge e jamais sucumbirá a derrota.
Por sua longa jornada no circo, é aceito novamente. Guarda em sua mente as piadas mais sarcásticas que só sua experiência fora capaz de criar. Foi um retorno brilhante. Ainda sente um pouco a frustração do amor perdido, mas agora fica muito bem enquanto está só. Ainda dói um pouco ver A Bailarina, mas sabe que o tempo faz mais convertidos do que a razão e até mesmo o coração.
O Mágico e A Bailarina ainda estão juntos, mas perderam a magia e boa parte do seu público.
Com um grande respeito a todos que se sentem bem sob a grande lona do circo,
Jorgin, O Maneiro.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Olinda, Eterna
O maior motivo que me faz ir até lá é um poema de Lourenço Barbosa (ou Capiba):
Olinda, Eterna
Quisera ver
Teu passado, Olinda,
Quando era ainda cheia de ilusão,
Para contemplar a tua paisagem
Para olhar teus mares,
Ver teus coqueirais,
Pular na rua com a meninada,
Brincar de roda e de cirandinha
Depois subir a ladeira do mosteiro,
Rezar a Ave Maria E nada mais,
Rezar a Ave Maria E nada mais
Olinda! Eterna!
Olinda! Eterna!
Por enquanto é apenas isso,
Jorgin, O Maneiro
Despedida
Minha história não é agradável, nem suave, nem harmoniosa como as histórias inventadas. Muito menos o final é feliz. Não é um conto de fadas, não é uma ficção. Só há insensatez, confusão, loucura e sonho, assim como a vida de todos os homens que não aguentam mais mentir a si mesmos.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Sem título #01
Jorgin, o Maneiro
domingo, 2 de janeiro de 2011
Mal do século
Naquele tempo eu lembro que morava numa república da capital. A tendência seria de lá partir para cima, mas não para baixo. Pois bem, voltei para casa dos meus pais, no interior. Pode rir, não tiro sua razão. O fato que é altos e baixos de anos atrás, hoje para mim não passam de retas pouco inclinados.
Tenho escutado os mesmos sons de sempre, assistindo cada vez menos a filmes, ido cada vez menos para apresentações musicais, shows e cinema. Por outro lado, tenho lido um pouco mais (que isso não me traga mais responsbalidade na edição desse blog, já que não tenho talento algum, nem para o amor, ou melhor, muito menos para o amor).
Tá vendo? Por que cargas d'água citei a palavra amor nesse contexto? Não havia sentido algum comentar isso, ainda mais referindo a um talento, e não como um sentimento como convém. Pode ser porque por mais que tente se enganar, por mais que queira uma carreira brilhante, por mais que queira ser um explorador, por mais que seja bem sucedido em tudo isso, jamais será completamente feliz. Isto é, há aqueles solitários que pensam em ser feliz com isso, mas se eles tivessem experimentado um grande amor na juventude, de certo, sentiram falta e estariam agora mirabolando alguma máquina do tempo para ter outra chance. Eu posso ser uma delas ou não, quem sabe?
Em se tratar da representação deste sentimento como um talento, vem, é claro, de experiências (evidentemente posso estar errado, e devo até estar, mas só afirmarei isso quando tiver um argumento convincente). É como se um discípulo de um certo monge, que certo dia trará uma cesta vazada (aquelas de palha mesmo) e pedisse para o seu discípulo trazer água do riacho para o topo da escadaria do mosteiro. Mas como poderia fazê-lo? Não restaria água alguma. Mesmo assim, teria que cumprir a tarefa do monge. Fez uma, duas, três... até perder a paciência com todas as tentativas frustradas e questionar o monge a respeito desta sua atividade, pré-julgada sem propósito, inútil, etc. Como todo monge (risos), sabiamente a atividade foi justificada: "Por mais que você passe por todas as situações possíveis, boas ou más, haverá uma sobrecargar de informações que jamais trará resposta alguma. Mas veja a cesta, não suportou segurar a água, porém ficou toda enxarcada. A mente não processa ou interpreta tudo para nos dar respostas, mas as experiências ficam, e ainda assim você aprende com elas".
Não sei se fui claro, acho que não.
Como diria Confúcio (ou Kung-Fu-Tse), filósofo chinês do século V-IV a.C.:
"Há três métodos para ganhar sabedoria: primeiro, por reflexão, que é o mais nobre; segundo, por imitação, que é o mais fácil; e terceiro, por experiência, que é o mais amargo".
Quanto a substituição do sentimento por talento se refere a habilidade. Um sentimento existe ou não existe. Não tem isso de existe um pouco, etc. Ou é ou não é. Todavia, uma habilidade pode ser intensa, mediana, fraca ou inexistente. Das duas uma, ou eu sou completamente hábil a ponto de melancolizar um filme de Almodóvar, ou pelo contrário, não tenho habilidade alguma, pois melancolizo um filme de Almodóvar. Não há mal pior que o ceticismo, porém até mesmo o amor que não compensa parece ser melhor que a solidão (como diria um amigo meu, "o mal do século").
Eu sei que não sou um poeta, um escritor, ou compositor. Eu sei que não escrevo coisas bonitas, mas isso não faz de mim menos artista quando se trata de sentir. Eu sei também, que posso ter até mais "habilidade" que certos cretinos que tem o dom da palavra.
Um forte abraço,
Jorgin, O Maneiro
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Com Um Pé No Mundo
Uma outra grande obra, desta vez musical, é o álbum “Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua” (1973), de Sérgio Sampaio (1947-1994), um marginal da MPB. Grandes composições acompanhadas de um som prazeroso. Não dá pra passar muito tempo sem este álbum. Faixas como “Leros, Leros e Boleros”, “Eu Sou Aquele Que Disse”, “Odete” e “Pobre Meu Pai”, por exemplo, me empolgam – esta última, principalmente. Hit como o da faixa-título jamais será esquecido. Está marcado a ferro na história. Um hino ao espírito juvenil, uma revolta contra a Ditadura Militar. Esse Kavernista da Cachoeira do Itapemirim é provocador.
Enfim...
Engraçado como sempre consigo achar algo para tirar o sono. Mesmo quando as coisas estão bem, muito bem por sinal (não ousaria citar a palavra perfeita – a perfeição pra mim é uma falha). Deve existir gente que não dorme por apreensão àqueles que, por azar, nasceram em um ambiente africano hostil, outros por causa do resultado da final do campeonato brasileiro, etc. A verdade é que nada disso me afeta. Não substancialmente. Penso agora em uma coisa: pôr os dois pés no mundo, de uma só vez, com olhos vendados e respiração ofegante.
Chega um momento em que se tem necessidade de deixar de ser menino. Não tem essa de adolescente, pré-adolescente, adulto, idoso e tal... As coisas são mais simples para mim. Existem Homens e Meninos. Só! E cheguei ao limite.
Acredito que com os dois pés no chão, eu conseguiria ir mais longe. Tem que agir, deixar de perder tempo com a cabeça, pessoas medíocres e sonhos amenos inúteis. Ser simplesmente mais realista. É cruel, mas tem que encarar. Logo logo consigo um emprego, moro com alguém e faço um filho (não necessariamente nessa ordem). Aí sim, depois disso tudo, dá pra voltar a ser Menino. Ou quem sabe isso tudo é muito drama.
A sensação de ser alguém dependente, desta vez, me revolta.
E é assim que venho perdendo minhas noites, me consultando com neurologista e procurando motivos pra me dopar com tarja preta.
E você aí, do outro lado, que está satisfeito com o que ganha e com o que tem, me diz qual é o segredo.
Um Abraço,
Jorgin, O Maneiro
domingo, 10 de agosto de 2008
Réquiem Para Um Sonho
Cecília (aquela flor),
Sinto por ter demorado tanto a escrever. Eu estava perdido, sem rumo, como se estivesse sem bússola. Vivo colidindo com as coisas, um tanto maluco, creio. O fato é que nunca estive perdido antes. Você era meu norte, meu destino. Sempre soube o caminho de casa, quando você era minha casa. Perdoe-me por ter ficado tão nervoso quando você partiu. Cometemos alguns erros e espero que não seja tarde para que Deus os repare. Mesmo assim, agora estou melhor. O trabalho me ajuda. Acima de tudo, você continua me ajudando.
Engraçado, você me apareceu em sonho ontem, com aquele sorriso que me prendia como um amante, embalado como uma criança. Tudo que lembro do sonho é uma sensação de paz. Acordei com essa sensação e tentei mantê-la enquanto foi possível. Não durou o suficiente para crer na solidão. Escrevo para lhe dizer que estou viajando rumo a essa paz. E para lhe dizer que sinto por muitas coisas. Sinto por não ter cuidado melhor de você, para que nunca tivesse um minuto de frio, medo ou aflição. Sinto por não ter buscado com afinco palavras para expressar o que eu sentia (eu falava tanto quanto um peixe). Sinto por não ter consertado a porta da varanda. Consertei agora. Sinto por ter brigado com você. Por não ter pedido mais desculpas. Eu era muito orgulhoso. Sinto por não ter feito mais elogios a tudo que vestia e ao modo como arrumava o cabelo. Sinto por não tê-la abraçado com tanta força que nem Deus poderia tirá-la. Esteja onde estiver, logo estarei contigo para acalentarmos esse pranto.
Com todo o amor, Jorgin.
PS: Um dia eu fui afetuoso, uma pena vocês não conhecerem essa minha fase.
sexta-feira, 18 de julho de 2008
E aí, blz?
Pois bem, a verdade é que eu precisava de uma viajada, literalmente. Não sabia, por fim, se dava um saque em BSB ou SSA. Como o R$ é curto, fui parar em SSA, que é aqui mesmo no NE. Além disso, não queria ficar de tocaia no DF; todavia, seria cool curtir um pouco de MCA por lá, enfim... (engraçado uma orações assim, repletas de conjunções coordenativas, tem um quê de inexperiência e falsa clareza de idéias, o que não é mentira).
Outro motivo que me levou a esta escolha é o fato de ter alguns poucos BFF’s (não entenda isso como um modo EMO de agir) naquelas bandas (ressalto aqui a presença da Ju, da Bia e do Jr., um abç pra vocês). E como não os via faz tempo (somente MSN), seria uma boa oportunidade. Então peguei o buzu, segui por umas 3 ou 4 hs a BR com meu surrado MP3 e meus fones originais do MF. No caminho escutei apenas o velho e bom HRock de AC/DC, um pouco da MPB de Sérgio Sampaio e, por fim, o irreverente e refinado MangueBeat de MLSA até que curiosamente o superbonder que havia colado o plug a umas 2 semanas, se rompe. Resultado, tive que me adaptar às FM’s que o cel captava.
Toda aquela coisa da BA me fez bem, afinal de contas trocar um vatapá pelo rango do RESUN da UFS quebrou a rotina e me deu mais cals, se bem que no fim das contas, só fiz gastar mais e mais ATP’s.
Agora estou aqui de volta a rotina de Aju analisando os fundos de investimento do FMI para a prova de Macro que terei em breve. Pqp!
Att,
Jorgin, O Maneiro
domingo, 8 de junho de 2008
Cuidado, Inimigo!
Primeiro o filme, como de costume. The Elephant Man (O Homem Elefante). Fabuloso filme inglês de 1980, em preto-e-branco, diga-se de passagem. Dirigido por David Lynch e como protagonista o grande John Hurt que interpreta majestosamente cada expressão facial de John Merrick, personagem com 90% do corpo absolutamente deformado devido uma rara doença genética, justamente por isso o longa leva este título. Baseado em fatos reais, o filme narra uma transformação na vida de John Merrick (1962-1980). Sempre injustiçado e usado como atração de circo, apesar de todos os empecilhos, nada o deteve, nem a alimentação baseada exclusivamente em batatas e muito menos a seqüência de surras que freqüentemente levava. Proprietário de uma alma louvável, John finalmente recupera sua dignidade com ajuda do Dr. Treves.
Duas cenas vou deixar por aqui para que você, caro leitor, fique realmente embriagado.
Quando Mrs. Kendal recita Romeu e Julieta aos prantos com John Merrick. Mrs. Kendal, emocionada com o instinto dramático de Merrick, olha para seu rosto desfigurado e diz: "Você não é o Homem Elefante... Você é Romeu!".
A outra é a morte mais poética que lembro ter visto numa tela. A passagem da morte de Merrick se baseia numa visão de estrelas e a única lembrança verbal que tem de sua mãe: “nada jamais morrerá” e então, por fim, finalmente resolve deitar em seu travesseiro como uma pessoa normal.
Sem uma relação clara com o filme, indico o Sergipano com “S” maiúsculo, Nino Karva e seu álbum Mangaba Madura. Fortemente regional, o álbum traz samba de côco, repente, forró, com composições realmente brilhantes. Destaque para “Ribeira” onde há uma brilhante letra, um pandeiro e uma gaita blues-rock, “Nos Mercados” e “Côco De Luthier” que rola até um brasileirinho no cavaquinho. No Forró-Caju, nos mercados, Nino Karva e Siba e A Fuloresta vale um esforço para comparecer. Se alguém quiser o álbum, ficaria feliz em passar.
E finalmente (estou realmente cansando de indicar obras, às vezes penso que não vale o esforço, afinal, cada um sabe o que melhor pra se ver e ouvir, mas por outro lado, particularmente, fico feliz em receber uma indicação de alguém que valha a pena – espero que eu valha a pena) a bebida. Vou ser o mais breve possível nesta. Licor de Rosa. Eu não conhecia (até hoje) e realmente, apesar de geralmente não gostar destas grandes concentrações de álcool hoje me fez bem. É que hoje estou amargo demais pra beber cerveja.
Mas essa minha amarguez tem sentido, pelo menos para mim. Talvez seja absolutamente o oposto. Pois bem, acho que ninguém gosta de ser quase roubado, exceto eu.
Tem um ditado popular que diz: “Quem vê cara, não vê coração”. Desculpe, mas não posso concordar. Pode até ser que seja um dom meu de enxergar na face uma personalidade, mas de uma forma ou de outra não se encaixa a mim.
Estava na capital desde a segunda e hoje pela manhã (sábado) fi quei apreensivo. Nada verdadeiramente excitante havia acontecido nesta semana. Que tolo. A semana ainda não tinha acabado. Havia tempo e de sobra.
Ao chegar no terminal de ônibus, bastante movimentado, e cercado por uma grande mochila nas costas que guardava alguns livros, apostilas, notebook, calculadora científica e mp4 além da mala com algumas roupas seguradas pela mão esquerda, me deparo com um cidadão observador sentando ao banco de concreto.
E então um conflito interno surge. Por um lado eu pensava: “Jorgin, se ligue. Aí é lanceiro e tá de olho”, e por outro: “Cara, pode ser um falso julgamento, uma falsa impressão, que pena esse preconceito”.
Mas eu sabia que lá no fundo, a primeira intuição vinha sempre à tona. Aquela tatuagem no braço esquerdo, o lado direito da face um pouco deformado devido alguma colisão. Bem, a tatuagem é bem comum, mas não naquele cidadão. Os hematomas na face poderiam ser fruto de um acidente, ou uma surra.
Mas tive uma idéia brilhante. Vou testá-lo. Serei a isca perfeita. Se este cara resolver roubar alguém, será a mim. E então saberia se meus instintos faziam jus ao próprio Jorgin. Então sentei ao seu lado e corajosamente abri aquela mochila suculenta, peguei o mp4, os fones, fechei e me pus a ouvir Krig-Há-Bandolo de Raul Seixas, com uma categoria digna de turista decisivamente vacilão.
Os discursos nos olhares eram claros. Ele observava aquela mochila, como um goleiro olha para a bola na hora do gol. Queria pegá-la. Mas ao mesmo tempo em que eu, esperto-imbecil, estava de cara pra cima, eu estava na dele. Meu instinto parecia estar certo. Mas ainda nada acontecera.
Meu ônibus chega e perco totalmente a concentração nele. Enquanto os tripulantes desciam da senzala ambulante Marcos Freire II – DIA, eu aguardava “ansiosamente” minha vez de subir e me dirigir à rodoviária e assim às minhas raízes por pouco mais de uma hora e meia friamente calculadas de viagem. Absolutamente tranqüilo e sem esperar nada mais, alguém se aproxima. De relance apenas noto uma aproximação desconfortável. Algo próximo de um acochamento, porém havia uma grande mochila entre mim e aquele sujeito que ainda não sabia de quem se tratava, logo, qualquer tipo de viadagem está descartada. Mas ainda assim, naqueles dois segundos meus neurônios afloraram e mil coisas passavam sob minha cabeça. Nenhuma delas era a possibilidade de um furto.
No terceiro segundo aproximadamente, escuto em Mi bemol (ou apenas Mi, meu ouvido não é tão preciso quanto aos semi-tons, mas ainda assim, apostaria no Mi bemol ) um zipper a abrir e realmente sinto uma pequena pressão aumentar sob minhas costas.
Rapidamente viro. Solto furiosamente algumas palavras cabulosas e por meio segundo quis matá-lo ali mesmo, na frente de todos. Mas as palavras foram o suficiente, infelizmente. O rapaz sai de fininho com uma cara de culpa no cartório, verifico rapidamente se algo sumiu, minha mochila ainda aberta me deixa um tanto quanto desorientado. Tudo estava lá. Acompanho cada passo do indivíduo. Acreditei que não iria ganhar nada em ir atrás do dito cujo e tomar satisfações. Sua aparência não me enganou. E tão pouco erraria novamente com aquele. Era aparentemente (e certamente) broco. Apesar de ser mais alto e uns dez anos mais velho que eu, me garantia numa troca de socos.
Enfim, isso me deixou com uma estranha e apreciável felicidade.
Descobri que posso confiar em meus instintos, que certas verdades absolutas não cabem a mim, nada sumiu e ainda dei uma de pseudo-valentão-doido-pra-quebrar-a-cara-de-alguém.
Agora vou rezar para que você assista O Homem Elefante, ouça Nino Karva e beba Licor de Rosas.
Jorgin, O Maneiro
PS: o uso da terceira pessoa para me referir a mim mesmo é prova do meu egocentrismo, mas quem disse que o Jorgin não é egocêntrico?
sábado, 24 de maio de 2008
Cabeça de Minduim
- Não são lindas as nuvens? Parecem bolas enormes de algodão. Eu podia ficar aqui o dia inteiro observando elas se mexerem. Se a gente usar a imaginação, ver uma porção de coisas nos formatos das nuvens. O que é que você acha que vê Linus?
- Bem, aquelas nuvens lá em cima parecem o mapa das Honduras Britânicas lá no Caribe. Aquela nuvem ali me lembra um pouco O Pensador de Rodan, aquela famosa escultura. E aquelas nuvens lá em cima, me fazem lembrar as ruínas do Barguenan e eu vejo o apóstolo Paulo de pé lá do outro lado.
- É. Isso é bonito. E o que é que você vê nas nuvens, Charlie Brown?
- Bem... Eu ia dizer que vi um patinho ou um cavalinho, mas mudei de idéia.
Esse é o nosso Charlie Brown, figura singular deste planeta. Criado por Charles M. Schulz em meados dos anos 50, a turma do Peanuts, pra mim, é uma das obras mais expressivas e uma das que mais me traduzem. O Charlie tem uma personalidade e alma impressionante. Ao mesmo tempo em que o garoto parece sofrer com uma velhice precoce, tem traços de uma infância bem resolvida e vivida.
Esse trecho inicial retirei do longa chamado “Um Garoto Chamado Charlie Brown”. Além de toda a qualidade e poesia que Charlie Brown aspira, há ainda a trilha sonora. Jazz! Isso mesmo, toda a trilha sob a responsabilidade do saudoso Vinci Guaraldi.
Admiro o Charlie devido sua complexa personalidade para uma animação, tiras e afins. Apesar de toda a frustração que esse garoto tem, ainda sobra espaço para o humor, brincadeiras e perseverança de um grande humano. O Charlie é muito mais humano que muito humano.
Quando eu crescer quero ser o Charlie Brown.
É claro que não falei o suficiente, mas acho que até você foi capaz de me entender. Então tá bom.
Passei um tempão sem escrever, ou algo parecido, por que estava absolutamente debilitado. Minha velhice precoce vai além da personalidade e do modo de ver a vida. Tenho medo. Mas vai ser preciso muito mais pra me derrubar, porque embora eu seja um desacreditado, ainda sim sou um bom vivedor.
Uma coisa diferente aconteceu. Poderia ser muito mais. Mas muito mais mesmo!!!
Devido o meu estado de saúde, tive que voltar ao aconchego do lar e nesse meio tempo, uns parentes precisaram do apartamento aqui na capital. Como disse, eu estava no aconchego do lar. O Alan, nesta semana, estava preocupado demais como um poeta louco americano e não apareceu por lá. O outro tinha um congresso em outro estado, enfim. Só estavam meus parentes.
Eu deixei bem claro que tudo que tinha lá era permitido o uso sem justificativas. E hoje, quando chego, me deparo com uma carta e quatro reais à amostra em baixo do jarro formado por flores descaradamente artificiais (não sei como esse jarro apareceu lá, mas ele me faz comprovar que Deus existe e por isso nunca o tiro de lá. Afinal de contas, é a única conclusão que se pode chegar ao comparar as flores naturais com estas. Eu não posso chamar de cópia ou imitação. Não consigo encontrar outra expressão que transcreva essa coisa, exceto os sinônimos de “descaradamente artificial”. E vendo isso, eu penso que se alguém consegue vender uma coisa dessas, eu posso ir muito mais longe).
Transcrevendo a carta:
Jorgin, estou deixando R$ 4,00 para repor a água. Não compre porque ainda tem um pouco no garrafão.
Seu tio Alberto.
Obs: tem um pacote de açúcar que eu trouxe aberto na porta da geladeira.
Isso me fez transbordar de alegria. Não por causa do dinheiro da água, ou por causa da cuidadosa
observação, mas pelo afeto que está nas entrelinhas. É comovente. De certo, me fez rir (o que é relativamente raro) e preencher meus olhos com um líquido salgado e incomum para mim.
Realmente, para achar isso brilhante e de amabilidade curiosa só eu, infelizmente. Bizarro para a maioria, provavelmente. Essa carta, como coisas bestas que vejo por aí me inspiram e fazem pensar que o mundo tem solução (por um instante somente).
É comovente demais, parece patético, mas eu não estou te obrigando a ler.
Tem duas ocorrências que vi em ônibus e que já fazem mais de 6 meses, mas custo esquecê-las e não quero.
Uma e a mais marcante foi um senhor com seus 65 anos aproximadamente e um provável neto, que já carregava uns 8 anos. Estavam do meu lado. E como eu não tinha nada de importante para fazer no ônibus eu abaixei o volume ao mínimo do mp4, olhei fixamente para a frente e me pus a prestar toda atenção que poderia prestar depois de um dia exaustivo, assim como os outros. Não consigo lembrar do conteúdo da conversa e tampouco seria significante. O que pude aspirar foi a conversa em si. A comunicação entre os dois era deslumbrante. Me deixou rigorosamente estático. A diferença aparente de 57 anos não dizia nada. Conversavam no mesmo plano, como se fossem duas pessoas e uma só alma. Os humanos, eles podem ser tão brilhantes. O que é uma pena é como eles são incompreensivelmente cegos e não conseguem notar o que são capazes de fazer sem o mínimo esforço.
Por isso e por outras coisas afirmo convictamente que não sou humano, embora tenha nascido (aparentemente) neste planeta.
Agora me sinto estranhamente feliz e não quero estragar isso por nada. Vou parar por aqui, antes que seja tarde.
Calorosamente abaixo de toda essa tempestade e dois edredons,
Jorgin, O Maneiro.
PS: agora consegui relacionar de alguma forma desconhecida esse meu estranho dia para se ter alegria, com Jorge Ben. Talvez por que ele nunca fez uma composição que não seja alegre. Não sei ao certo.
sábado, 17 de maio de 2008
Elevador Vazio
Pra não cair na rotina, desta vez não acabei de assistir nenhum filme, mas para não perder o costume vou recomendar um que assisti ontem aqui, sozinho. Chama-se O Clube da Leitura de Janes Austen. Bem, a primeira pergunta que se faz é: quem, por cargas d’água é Janes Austen? Clareando um pouco, digo que é “considerada” (entres aspas, por favor) a segunda maior e mais influente escritora inglesa, a primeira colocação, todos devem saber, fica com Sheakespare. Acho que não preciso comentar a respeito dessas ‘listinhas’ que se referem a ‘Best-Sellers’ ou aqueles famosos ‘The Best Of’. Ou pior ainda, ‘Os 100 Melhores Filmes do Século’. Essas coisas servem só como referência, pelo menos pra mim. Não dou valor considerável algum. Voltando ao filme, assista! Não se trata de um filme ‘retrô’ no cenário de séculos passado. Se trata de um grupo de mulheres com problemas singulares que se juntam neste clube, que por ventura, um homem entra. Parece ser um tanto fútil, mas não é. De certo eu consigo extrair um belo sentido em qualquer merda, mas essa não é qualquer merda.
Banhado pela influência das ‘fêmeas sonhadoras’ (abro parênteses aqui para explicar um pouco desse meu termo. Acho isso brilhante, sou entusiasmado por essas fêmeas. Parece ser uma citação machista, com um cunho meio preconceituoso, mas é exatamente o oposto. Conheço essas fêmeas de longe e sinto uma atração – não sexual, exatamente – inexplicável e inquestionável. Paixão, amor platônico ou qualquer outra palavra de qualquer outro vocabulário não se encaixa bem nisso, mas deixo que você o considere), ouço Carla Bruni. Sabem quem é, não é? Incendiário isso! Além de ser uma pessoa super-agradável (deixo a responsabilidade desse comentário para a rainha inglesa), essa francesinha linda canta suas músicas autorais com um suspiro-rouco-baixo-ultra-mega-sexy. O álbum que ouço é o ‘Quelqu'un M'A Dit’ (Alguém Me Disse) de 2003 (atenção extra para a oitava música, Le Plus Beau du Quartier, tem um vídeo desta de um show publicado no youtube, assista e me diga o que achou daquela coisinha magnífica assoviando como um pássaro afinadíssimo raro que nunca se viu seu ninho em canto algum deste planeta). Se Deus me deixasse escolher uma pessoa para eu passar 24 horas em contato e logo após morresse, SEM dúvida, essa pessoa seria Carla Bruni. Morreria feliz e esqueceria todo esse blá blá blá de frustração de meia tigela.
Sem mais meias palavras e delongas...
A algumas horas eu estava numa festa regado a amigos, garotas, bebidas e cigarros. Foi numa quarta. Eu posso ser louco, mas nem tanto. Participei (claro), mas sem exaltação, pelo pouco de sanidade que ainda me resta. A situação que quero descrever não diz respeito à festa, mas sim ao que houve após ela.
Já era tarde, tudo tinha ido embora, o que restou foram os efeitos da boemia e o cheiro de cigarro nos cômodos. Já eram umas 4 horas da manhã e me deparo com um choro ao longe. Estranho isso depois de uma ‘animada’ festa. Mas sou curioso e fui conferir. Olha lá quem era: o ‘pegador’ deitado no chão aos prantos, como um recém-nascido que acabou de sair de um útero confortável e quentinho. A primeira reação minha poderia ser a de rir, a de qualquer um seria isso. Mas eu sou estranho. Fui dar atenção como quando se dá a uma criança que caiu no parquinho e ralou o joelho.
“Que houve, velho?”
Perguntei por perguntar, qualquer um saberia que a única razão para tal pranto só poderia ser uma fêmea (desta vez não como aquela que sou regado de paixão). Não ousaria chamá-la de vadia porque não seria justo com ela, já que o que me influenciara era o estado ‘cachorro-bêbado-aos-prantos’ do amigo.
“Jorgin, me empresta o celular!”
Um ser normal diria: “Só se eu for louco! Veja seu estado!”. Mas isso não se enquadra a mim. Fiz o seguinte. Disse a ele: “Olha só, todos bebemos e não estamos exatamente conscientes. Então vá lavar o rosto, beber uma água, forçar essa voz de moça e pegue o celular em cima da geladeira”. Era o que um bom amigo faria eu acho. Dei a chance dele fazer o que queria no estado de mais pura sinceridade e criatividade.
Fui tomar um banho e 20 minutos depois ouço umas risadas. Não, ele não vai ficar com ela, mas o pior já passou! O final do filme foi feliz, não o quanto queríamos, mas foi. Pelo menos naquele instante.
Tem mulheres que fazem coisas estranhas (no sentido ruim). Com essas não consigo ter o mínimo afeto, no máximo um atletismo. (Assim como não suporto os carinhas que conheço de infância e hoje faço questão de virar meu rosto aos vê-los passar).
E é com episódios como esses, que de um estado de profunda melancolia (sem viadagem), como um poeta que envelhece lendo Mayakovsky na porta de uma alguma conveniência, que aspiro a coisa que vale a pena. Porque até mesmo um copo vazio está cheio de ar. Se não, chega a morte ou coisa parecida e aí?
Oras, afinal de contas, ser tão só quanto um elevador vazio tem seu lado positivo... Eu sei que se mesmo que a vida não me trate com amor, insisto em viver.
Caro leitor, peço desculpas pelo tédio e a falta de conteúdo atraente. Como forma de arrependimento, e uma maneira objetiva de demonstrar minha desgraça nesse pasmo literário, espero que aceite este humilde e sincero bouquet de parênteses recém-desabrochados com um perfume ímpar e impagável: (((())))
Com açúcar e com afeto,
Jorgin, O Maneiro
PS: Ganhei um bouquet desse pela primeira vez com J.D. Salinger, no conto "Seymour, Uma Apresentação".
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Man Vs. Wild
Inspirado pelo filme, ouço Robert Johnson, aquele velho blues do Delta do Mississippi. Algumas literaturas afirmam que foi assassinado por tiros, outras que bebeu wiski envenenado, que foi espaçando e tal e a lenda persiste. Entre um mito e outro, só posso firmar uma coisa: ele realmente morreu! Mas o que seriam das grandes personalidades sem os mitos? Não me importo com isso, mas sim com a obra. (Caro leitor, não te peço para ler nada. Até sei que é chato, mas se prefere continuar, é por sua conta e risco.) É em palcos de madeira, meio comidos por cupins, é que se tenta mudar o mundo. Já toquei em desses, mais ainda não um blues.
Mudando do cuzcuz de milho batido pela dona de mãos encantadoras para uma Baden Gold gelada num solzão da praia do Saco de um dia de domingo...
O assunto é sério e minha carne é mansa.
Talvez poucas pessoas me entendam. Como (mal) sabem, moro de um certo modo só. Isso tem os pontos positivos e negativos. Realmente ainda não sei se vale a pena, mas como forma de experiência e conhecimento de vida, é graciosamente agradável (bem sei que tenho alguns ‘luxos’, como não me sustentar financeiramente por exemplo, mas vale. Filmes como esse que acabo de assistir – se bem que um homem não se mede pela quantidade de filmes que assiste, mas sim com a quantidade de trabalho – me mostram que tenho que passar por isso e por coisa pior, e é o que venho buscando. Não que eu sinta prazer em sofrer, como é mesmo que se chama? Ah! Sadomasoquismo. Não é isso mesmo! Mas é quero um dia plantar uma árvore, escrever um livro, gravar um álbum e ter um filho, ou mais, de preferência. Para árvore quero fazer uma jangada, não uma jangada comum e bonitinha, mas um que me faça tremer os joelhos quando vê-la. Do livro espero que somente as pessoas que façam parte de minha vida o tenham, nem precisa ler, afinal de contas sou péssimo nessas coisas, você sabe disso. Do álbum espero escutá-lo todos os dias, é evidente que não vou cantar, só quero vibrar a cada pizzicato, thumb e slap que eu executar. E finalmente – agora sim cheguei onde você talvez me entenda na parte que antecede esse parênteses imenso e fabuloso que estou prestes a fechar, aliás, esse está sendo o parênteses mais importante da minha vida – do filho ou filhos, espero ter muitas, mas muitas mesmo, histórias para contar. Tanto fatos surreais, quanto sonhos reais, entre um e outro estão dentro os delírios e as frustrações).
Caríssimo, deve estar cansativo, talvez até desagradável. Estou lento e não cheguei nem a uma milha de distância. Mas se você chegou até aqui, seja forte e continue. Não sei a causa que te fez chegar aqui, mas... Esquece, em suma, continue!
Como a um tempão atrás eu estava escrevendo, moro só e pan e tal... Uma coisa me chamou atenção a pouco tempo atrás. Sou um sujeito que até algumas horas me considerava preparado.
Bem, vim do interior morar na capital (não que seja uma capital escrita com letras de fôrma, mas é aqui onde as coisas crescem nesse estado), e como dizia Raul Seixas, “ao chegar do interior inocente, puro e besta”. Na língua aracajuana eu não sabia falar um “oi” ou dar um “tchau” com a mão. Aprendi muita coisa nesse meio tempo. Aprendi que não se deve confiar em motoristas de ônibus, por que eles não têm mães. Aprendi também que um macarrão só está no ponto quando o arremessamos no azulejo e ele gruda. Aprendi que não se deve fazer cobrinha perto de um canal de esgoto e por aí vai... Extraindo o importante disso aí eu pensava que sabia “me virar”, que já era “crescidinho” e estava virando “alguém”. Mas uma coisa me fez refletir (filosofia barata, na verdade). Puta que pariu!!! Me deu uma dor de barriga miserável. Minha barriga parecia aquelas de um alemão pós-segunda-guerra-gordo, uma boina verde com uma pena branca na cabeça, um par de botinas nos pés e um calção também verde segurado por alças que atravessam os ombros, sendo que em sua mão esquerda está um canecão enorme de vidro com chopp até a beirinha e sua outra mão limpa a espuma do chopp em sua bigode grisalho. Consegue imaginar a dimensão? Passei mesmo mal.
Mas eu sou “grandinho”, “sei me virar”. E agora o que faço? A quem recorro? Não posso sair no meio da madrugada para comprar remédio a quase meio quilômetro de distância nessas condições, nem sei mesmo o que devo tomar. Eu já rezei. Me deitei, sentei, levantei, pulei (esta última só fez piorar) e nada. Merda !!! Também não saia.
Agora só pensava em uma coisa, ligar pra minha mãe =/ (desculpe por este “emoticon”, mas estou sem graça e adoraria que você não fizesse comentário algum). Mas ela está a quilômetros de distância, não poderia me ajudar. No máximo indicar algum que remédio que só ela sabe que me dou bem, mas mesmo assim eu não sairia para comprar. O fato é que a voz, a preocupação que só uma mãe tem, me traz um suspiro e enche meus olhos de lágrimas (como estou agora) e isso me dá esperança. Vai passar!
Não pude vencer o “selvagem”. Perdi. Minha carne mansa perdeu. Ainda sou um quase nada e estou longe de conquistar alguma coisa. Se não fosse esta dor de barriga iria demorar mais para perceber isso. Senhor, muito obrigado por esta dor de barriga fabulosa no momento mais importuno. Obrigado também por ter um telefone celular e por minha mãe ter acordado. E obrigado pela minha cabeça oca de cabelinho de sapo.
Não quero e nem posso me exceder mais. Já já tenho que estar de pé para gritar ao mundo da varanda do apê que sou um lobo louco enfrentando o habitat que não deveria fazer parte.
Cordialmente (como nunca),
Jorgin, O Maneiro
