quinta-feira, 31 de março de 2011
Também Morre Quem Atira
Desde muito jovem sentia-se independente e tinha um espírito aventureiro, até que com o estopim do golpe de sessenta e quatro frustrou-se e mobilizou todo o ardor do seu sangue no desenvolvimento da guerrilha armada brasileira. Isso aos dezessete anos de idade, quando fugiu da fazenda do pai. Ainda na infância recorda facilmente do seu gen agressivo. Enquanto seu pai proibia a garota de sequer aproximar-se do matadouro de bois em sua propriedade, ela sempre dava um jeito de fugir e participar dessa chassina. Nos primeiros momentos Lalinha se assustava com carnificina, com os ruídos que o animal produzia, com a violência do impacto, com a quantidade de sangue esvaziando o corpo do animal. Isso durou pouco. Acostumou-se com a atividade e convenceu o funcionário de seu pai para realizar sua primeira vítima. Lalinha segurou firme o cabo de uma madeira e num movimento rápido atingiu a cabeça do animal, infelizmente a força da garota não foi suficiente e recebeu ajuda no segundo golpe. O barulho da madeira atingindo o crânio do animal sempre provocou uma vibração sonora agradável para seus ouvidos. Com o animal já ao chão e ainda com os olhos abertos, Lalinha perfurou com uma espécie de canudo metálico o interior da nuca do boi, o sangue espirrando e molhando suas mãos foi um atraente sinal de conquista. Ela tão pequena, conseguiu exercer dominio sob um animal daquele porte e matá-lo em três minutos. Nos dias seguintes Lalinha estava viciada.
Ainda não sabia ao certo se o envolvimento com a guerrilha era pelo desejo revolucionário ou pela adrenalina que um tiro certeiro no inimigo produzia. Umas pessoas tem vocação para medicina, outras para engenharia, Lalinha acreditava ter vocação para matar.
Quando não seria o exército um valhacouto de torturadores? Esses Lalinha sentia mais prazer no combate armado. Passava horas polindo suas armas e praticando o tiro. Apesar de ser a mais jovem do grupo, era a mais destemida, cruel e, de um certo modo, eficiente. Passou a usar o pseudônimo de Augusta, e desde que fugira de casa jamais viu sua família. Lalinha não se incomodava com as noites mal dormidas, com as comidas mal nutridas e as roupas mal lavadas, pois tinha certeza que no fim do dia valeria a pena, seja pelo fortalecimento de seu grupo, seja pelo prazer de fazer mais uma vítima.
Uma missão de captura do seu grupo ordenada pessoalmente por Costa e Silva, conduziu um batalhão de soldados para área de acesso daqueles guerrilheiros, certos setores da população não gostavam da ideia de ter essa gente em sua cidade, e por tanto denunciavam, tornando mais fácil o trabalho dos comendatários. Para infelicidade de Lalinha, nesse corpo de ação havia um cabo em especial, o Oliveira. As únicas leis que esse militar conhecia eram as leis da vingança e da ordem. As ações de Augusta eram conhecidas dentro dos batalhões, de certo modo tornou-se um mito sua personificação. Dentre essas ações Oliveira recorda de uma, a qual trazia um gosto especial pela busca de Augusta: seu pai, o Comandente Oliveira fora assassinado enquanto saia do cinema na capital. Rumores indicaram a presença de uma jovem, que apesar de estar em grupo, fez questão de dar o tiro de misericórdia. Essa jovem era Lalinha, ou Augusta para os militares. O cabo Oliveira jamais superou a morte de seu pai, e jurou a condenação daquela alma impiedosa.
Depois de duas semanas seguindo os rastros em mata densa, numa noite de agosto de 1969, o batalhão repreende os guerrilheiros e há captura de treze deles, além de duas mortes. Para infelicidade do cabo Oliveira, Augusta não estava naquele meio. Sem outra solução Oliveira olha para as faces assustadas daqueles prisioneiros e vê no resto de um deles um germe de desconfiança. Seleciona este para um interrogotário, o Genuíno.
Genuíno era um sujeito nitidamente revolucionário, um admirador de Che Gue Vara, mas algumas de suas ações eram questionáveis para aquele grupo. Ele era o cabeça de informação e conseguia muitas delas por meio de propina, com recursos oriundos do mercado negro de munições com tropas esquerdistas bolivianas. Sua dignidade sempre foi duvidosa entre seus companheiros.
Oliveira manda Genuíno sentar-se numa cadeira de madeira com uma das pernas tombando, dá um boa noite que é rapidamente respondido no mesmo tom de voz, pede ao outro soldado para amarrar as mãos dele atrás do encosto da coluna, e retira imediatamente sua calça bastante surrada. Mas Genuíno não demonstra qualquer sinal de medo, raiva ou tristeza, simplesmente está indiferente, isso definitivamente parecia nao o intimidar. Confiante demais para os pudores de Oliveira. O Cabo retira de sua maleta um equipamento simples, eficiente e já conhecido entre os torturadores: um par de fios desencapados e eletrificados, ligados a uma bateria. Oliveira questiona sobre Augusta, mas Genuíno não parecia ter ouvido.
O volume dos gritos passou a ficar cada vez mais intenso até que Oliveira respira fundo e calmamente reinicia:
- Como você não está cooperando, vamos recomeçar. Tá vendo esses fios? Quer vê-los sobre seus testículos? Garanto que suas bolas explodirão antes de você desmaiar de dor. Vamos ver até quando você sua masculinidade resiste.
Ao aproximar os fios a cerca de dois palmos Genuíno responde:
- Sei exatamente onde o resto do grupo está, sei onde estarão e conheço cada passo de Augusta, ou Lalinha como nós a conhecemos.
Foi o suficiente para Oliveira abrir um sorriso, guardar sua parafernália e iniciar uma conversa branda entre bandido e bandido, sob a garantia de anistiar Genuíno.
Na manhã seguinte os militares encontram facilmente o resto dos guerrilheiros e uma troca de tiros agressiva surpreende a calmaria que a floresta está acostumada. A guerrilha possui poucas alternativas, já que está com o grupo defasado e foi pega de surpresa pela tropa militar. Não foi difícil Oliveira encontrar a jovem e atingi-la em sua coxa esquerda, desequilibrando Lalinha até que tombe na terra molhada.
- Renda-se a não ser que deseja morrer!
Oliveira estava tenso com aquela situação, mas a jovem caída ao chão não parava de disparar contra o cabo e não deu um piu sequer. Sua munição evaporou num instante e a jovem não parecia apelar para a rendição.
- Qual é seu nome garota?! - Oliveira gritava euforicamente - Qual é o seu nome, porra?!
Num espasmo Oliveira segurou os cabelos da jovem, inclinando sua cabeça para frente, num gesto agressivo, mas que possibilitava olhar no fundo dos seus olhos. E tornou a gritar:
- Porra, me diz o seu nome ou te mato agora? É você que é a Augusta?
Lalinha retribui o olhar, e abre um leve sorriso no canto da boca:
- Guerrilheira não tem nome.
Oliveira dispara imediatamente com sua trinta e oito sob seu maxilar. Nesse momento Dona Lalinha deixa de existir.
segunda-feira, 28 de março de 2011
Adiós Muchachos
Faz tanto tempo que não passo em certos lugares. Minha memória hoje é minha principal inimiga. Onde está Bené? Onde está o senhor que passava pela rua de minha avó tocando um triângulo enquanto vendia cavaco-chinês? Onde está a preguiça que vivia nas árvores da praça? Cadê aqueles garotos todos com quem joguei bola na rua de paralelos, hoje asfaltada? Cadê aquelas meninas que na flôr da puberdade criavamos joguinhos para destribuir beijos? Onde está minha primeira paixonite de tantos anos atrás? Eu não vejo mais ninguém soltando pipa, jogando bolas de gude, peão ou colando figurinhas. Tenho certeza de que já não sou o mesmo garoto que saia com uma biscicletinha amarela até a loja de conveniência do posto para comprar picolé, era só o que eu precisava para rir. Hoje tenho receio de olhar no fundo dos meus olhos pelo reflexo do espelho e não ver mais o que um dia eu fui. Sou apenas um alcoolatra prostituído, corrompido pelas imoralidades. A inocência é muito fácil de se perder e impossível de ganhar.
Não acredito num recomeço, mas julgo minha atitude por que não adianta ir contra o mar que por mais que haja esforço, ele sempre vence, sempre leva. Parece ser o curso natural das coisas, muito mais forte que os desejos e a ambição de criar uma família aqui, nesse lugar imperfeito e poético, ainda sustentando um cheiro de terra molhada ao chover juntamente com a brisa úmida.
O caminhão de mudanças está aguardando o envio de material. Me choca essa imagem da partida e a sensação de que agora jamais retornarei para ficar. Que esse meu quarto ficará vazio, se tornando um quarto para visitas talvez ou o tão sonhado escritório que meu pai almeja. Me choca voltar nas férias para ser uma 'visita', reunir os parentes e amigos para festejar minha vinda. Ah, quantas recordações.
Pode ser normal para as pessoas, mas quem sempre fere meu coração sou eu e mais ninguém.
Hoje quero crer que nada foi em vão.
E só.
Estância, abril de 2011.
Jorgin, O Maneiro.
quinta-feira, 17 de março de 2011
O Diário Perdido de Connie, Semente de Maçã
Querido diário,
Hoje não deveria ser um dia para sentir alegria, mas no entanto é assim que me sinto. Lembra-se daquele garoto, o texano cheio de ternuna, o qual me aventurei há uns três meses, o Charlie? Ele realmente é amável, mas cansei. Terminamos hoje pela manhã.
Depois do almoço fui até a praia para pensar um pouco nos próximos passos, agora que estou solteira e sou jovem tenho a vida toda pela frente. Minha pele bem cuidada devido esses anos todos de alimentação regrada e produtos de beleza finalmente serviram para alguma coisa. Ainda na praia, enquanto passava meu protetor solar de fator 50, que mantém minha boa textura de pele e ainda garante um agradável perfume, um surfista com sangue latino me encara antes de entrar no mar. Adorei essa sensação de me sentir desejada. Eu jamais sairia dali antes dele ir embora, e assim o fiz. Em sua saída do mar revidei o olhar, foi um convite às claras para o desencadear da arte da sedução. Ele veio até mim e agora, 13 horas depois, o "eu e ele" se tornou "nós".
Desde então estou me perguntando se poderia me enquadrar com o título "garota fácil", pouco importa para mim, mas gostaria apenas de entender. O que há de demais em abandonar alguém que gosta de você, que se importa com você, alguém que realmente seja agradrável e ir de encontro a alguém que nem mesmo sei se seu nome tem um ou dois éles, mas que possui um tom moreno de pele encobrindo os músculos definidos? Ai, é de arrepiar, risos.
O fato é que realmente não me importo com nenhum dos dois, apesar da ternura de Charlie e da atração física por Alan ou Allan.
Deve ser algo biológico. Algo previsto por Darwin, a seleção natural ou dimorfismo sexual. Uma simples luta entre indivíduos pelo direito de se reproduzir. Seria considerável essa hipótese se estivessemos no período paleolítico médio, onde músculos, agilidade e uma pele escurecida seriam favoráveis para a propagação da espécie. Neste século, o cérebro parece ser mais viável, já que possivelmente Charlie garantiria um futuro mais próspero em relação à habitação, alimentação, lazer e etc.
Nossa, isso é uma confusão. Só um momento, o telefone está tocando. Ai!!! É o Alan, ou Allan. Vou aproveitar e perguntar como se escreve seu nome.
(...)
Pronto. Finalmente descobri o motivo dessa escolha e termino aqui minhas interrogações: acontece é que eu estou com tesão.
Aqui na California as coisas são assim.
PS: o nome do surfista latino é com dois éles.
Até amanhã,
Connie, Semente de Maçã
domingo, 13 de março de 2011
Boa Sorte
Na terra o tempo prega peças em você. Um momento você está vivendo a realidade nua e crua, sem condimentos ou temperos; no próximo, voce está sonhando e depois acorda só para estragar o seu dia; e no último, o sonho se torna realidade. Por esse último ainda espera, apesar de achar que não ficará tempo suficiente por aqui para poder apreciá-lo. Já existiram épocas melhores para você, mas você de repente acordou. Parece que alguém escreveu seu roteiro como se escreve um seriado americano.
Se alguém tivesse te dito isso antes pelo menos, certamente não acordaria. Erros foram cometidos, assim como corações foram partidos e severas lições eternas aprendidas. Sua família continuará sem você, enquanto se afoga num mar das (des)graças sagradas da vida. Você não ama ninguém, na verdade jamais amou. Apenas ama a ideia de amar.
É duro ter que escrever isso, mais duro ter que ler, presumo. As palavras não nasceram para ser algodão-doce, nasceram afiadas como lâmina de um punhal penetrante. Um corte profundo reage melhor que um açúcar derretido na saliva da sua boca. Quer saber quando vai parar doer? Não vai gostar de ouvir isso, mas se você tiver sorte, nunca. É essa dor que ainda te mantém em vida.
Você tem que contar com o que você realmente é, não conte com seu potencial, ninguém sabe se um dia o atingirá. É bem verdade que ninguém deveria ser obrigado a enfrentar sua própria face, é bem verdade que ninguém deveria ser só mais um tijolo na parede, mas às vezes é só isso que você pode ser.
De qualquer forma é melhor se deitar acreditando que nenhum sonho que você ousou sonhar está além de seu alcance.
O relógio está correndo e não vai parar. O buraco está cada vez mais fundo. Vinho é bom, whisky é melhor, admito, mas a bebida causa um suicídio lento e degradante, porém não é isso que vai te matar. É a vida que vai te matar.
Não sei como chegou até isso, mas sei que chegou aqui, apodrecendo sua carne sob o sol quente de Los Angeles.
Todos estamos desperadamente loucos para sentir algo.
Boa noite, Charlie.
Jorgin, o Maneiro.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Síndrome de Shoichi Yokoi (ou no melhor dos casos, de João Gilberto)
Bem, Shoichi Yokoi foi um soldado do Exército Imperial Japonês. Durante a II Guerra Mundial, foi enviado para a Ilha de Guam em meados de 1941, no Oceano Pacífico, ocupada pelos japoneses logo após um dos mais populares ataques desta guerra, o ataque à Pearl Harbor. Em 1944 os norte-americanos recuperaram a ocupação de ilha e Shoichi Yokoi embrenhou-se nas matas com o intuito de não ser capturado. Até aí tudo relativamente normal, exceto pelo fato dele ter passado 28 anos vivendo num buraco, fugindo de qualquer tipo de ser humano e sem noção alguma do fim da guerra ou de qualquer outra coisa alheia a isso. Até que um dia foi encontrado, tornando-se um herói nacional. Mas que motivo ele teria para essa fuga de 28 anos, sem contato com a família, amigos, seu país, sem conforto, sem uma alimentação adequada, com roupas feitas de plantas nativas?
“Foi muito constrangedor para mim ter retornado com vida”, foi o que ele disse ao chegar de volta ao seu país.
Ainda não encontrei, mas adoraria assistir o documentário Yokoi and His Twenty-Eight Years of Secret Life on Guam (Yokoi e Seus Vinte e Oito Anos de Vida Secreta em Guam). Um caso semelhante e bastante intrigante também é o de outro soldado imperial japonês, Hiroo Onoda, mas não discutirei esse, apesar da semelhança a causa é outra. Vale a pena dar uma pesquisada.
Meu caso não chega a esse nível (pelo menos até agora), mas parece muito com o de João Gilberto. Este cidadão, que por sinal é nasceu onde morei nos primeiros anos de minha vida, Juazeiro da Bahia, é tido como ícone da bossa nova, um ritmo sincopado da percussão do samba, com o emplacado Chega de Saudade (1958) interpretado por Elizeth Cardoso, tendo João Gilberto ao violão, que posteriormente fez um álbum homônimo.
Hoje aos 79 anos, vive em seu apartamento no Leblon (que por sinal não é de fato seu, já que é alugado de uma condessa italiana por mais de quinze anos, que por sua vez acabou de enviar uma ordem de despejo segundo a Folha de São Paulo, o que nem convém eu reiterar), totalmente enclausurado. Não atende a telefonemas, não tem empresário ou assessoria de imprensa, não faz apresentações, toda sua alimentação é enviada até sua residência, e nem mesmo o porteiro ou vizinhos o vê.
Me recordo agora do caso de Belchior, em que uma onda nacional provocada pela mídia global foi a sua procura. O encontraram isolado num pequeno vilarejo do Uruguai, atrapalhando sua reclusão tão bem conquistada.
Me sinto como esses caras, não sei quais são seus motivos, mas gostaria simplesmente de ser um fantasma, mas sem ninguém procurando por mim. Lembro agora do filme Into The Wild, 1997 (no Brasil, Na Natureza Selvagem), baseado no livro Jon Krakauer, publicado em 1996, que conta a história verídica de Christopher McCandless (que passou a adotar o nome de Alexander Supertramp em seu período de reclusão no Alasca e outros lugares magníficos). Quem já assistiu deve ter tido vontade, nem que seja um pouco, de se recolher daquele modo. Eu tive muita (e tenho ainda), mas sou preso por afetos e por gostar de fazer o que faço.
Mas por que a reclusão? Por que se privar das coisas assim? Por que todos esses, cada um com seus motivos e com sua intensidade, preferiram sumir?
Por que EU gostaria de sumir?
Quidam é um termo épico usado por Cyprian Kamil (1821-1883), poeta polonês da segunda geração do romantismo -- olha só onde fui me meter, esse nome deriva da palavra em latim que significa alguém, um ser humano e Cyprian o usa como um homem que procura um lugar na vida, alguém em busca da verdade. Um anônimo, um órfão completo: Quidam, uma sombra de tristeza. Quidam não tem garras retráteis, nem coluna vertebral de titânio, tampouco moral flexível. Me identifico bastante com isso. O mundo pede o oposto do que um Quidam pode oferecer. A clausura parece uma solução, ou pelo menos uma busca por respostas.
A estrada, sinto ela como uma velha amiga. Uma pena não ter tanto contato quanto gostaria e deveria. Me ensina mais que livros e filmes, tem mais devaneios do que os sonhos todos, dá mais respostas mesmo quando surgem mais perguntas, alivia a alma, a mente, o coração. A estrada parece ser o único caminho para a busca das verdades.
“Não pôr fim ao que tem remédio e denunciar as coisas com um simples murmúrio torna-nos cúmplices da nossa miséria”, Saramago, El Pesimista Utópico.
Acabo sendo conivente com minhas angústias. Apesar de chegar ao desejo bastante forte de abdicar de tudo, de procurar respostas com uma velha amiga, no entanto, estou aqui sentado.
Veja o Egito, deve ser o povo mais punk do globo, depois de trinta anos suportando seu ditador, resolveu sair para as ruas como aquela máxima do “faça você mesmo”.
Rezo para que um dia também quebre minhas correntes. Por enquanto vivo com Dom Quixote de La Mancha e Sancho Pança vivendo no terreno mais hostil que consigo imaginar, minha mente. Um verdadeiro conflito de interesses do meu eu com meu outro eu. Se de um lado Dom Quixote é um visionário, um idealista apaixonado, com seus sonhos fantasias e delírios, do outro, Sancho Pança é um cruel realista, que vê apenas o que enxerga. Dom Quixote coloca à tona meu coração, meus sentimentos, minha alma, Sancho Pança reprime, põe o dedo na ferida, tem o trabalho como a dignidade do homem. Um alheio ou pudor de ser escravo do outro.
É como Dom Quixote se refere ao seu fiel escudeiro, Sancho Pança: “Um rapaz de bem, mas com pouco sal na moleirinha”.
Nesse conflito interno um dia alguém vencerá e se for para eu morrer de amor, que eu morra acordado.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Zé Sereno, 62 quilos de melancolia
O coração desse pobre soldado vinha batendo meio coisado, não existia consolo para reduzir sua disritmia, não existia travesseiro suficiente para cobrir seus sonhos tortos, nem cobertor para acalentar seus devaneios, nem viagens para fugir do mundo.
Entre um copo e outro, o peito do infeliz emitia um estranho ruído. De vez em quando na mesa, a gente escutava um estranho zumbido. Eu tinha medo de acompanhá-lo numa embriaguez mútua como sempre fazíamos nos bons tempos. Desde que ela foi embora, assim, sem mais nem menos mesmo, no auge da paixão apesar dos dias todos transcorridos, ninguém mais parece estranhar quando o pobre se derrete e chora. Estava se tornando um hábito. E eu estava terrivelmente mal por não ter condições de ajudá-lo, meu grande camarada de tantos tempos agora parecia ter se entregado. Não tinha como animá-lo, ele acabava sempre tudo com um discurso inconformado, e todos acabavam concordando. Não havia como relutar contra seus argumentos, o coração sempre acerta quando colide com a razão.
Zé Sereno optou se distanciar de nós amigos, pelo que consta iniciou uma fase negra da sua vida. Álcool já era nosso costume, apenas o volume ingerido que assustava, e segundo as más línguas, o pobre soldado estava no ácido. Zé Sereno não era mais o mesmo, era apenas sua sombra. Eu tentava me lembrar como ele era sem o ácido, como ele era sem o litro de conhaque, mas foi tudo apagado da minha mente. De Zé Sereno só lembrava de sua sombra.
Foram alguns longos dias e ele reapareceu, no mesmo bar, em nossa mesa. Sua aparência estava melhor, apesar de sua pele relativamente flácida para seu sangue jovem e dos ossos da maçã do rosto visíveis. Conversamos um pouco sobre coisas alheias a tudo isso, alguns vezes sua feição esboçava alguns sorrisos. Depois de algumas horas ele me contou que estava superando tudo isso: "A melhor maneira de esquecer
uma mulher, é transformá-la em literatura". Curioso, jamais tivera pensando nisso, mas fazia muito sentido.
O convalescente Zé Sereno escrevia como um louco. Eu li um pouco de seus rascunhos. Incrível, como a arte pode dar dimensões ricas e belas a uma vida tão acidentada, recheada de rancor e amargura?
Suas ambições literárias eram grandes demais, e potencial, no meu ponto de vista, tinha tanto que sobrava. Cada letra, cada palavra reproduziu em mim sintomas únicos, intensos. Não havia como ler rapidamente, era preciso degustar aos poucos, para dar tempo de digerir toda a informação e sentimentos envolvidos naquilo. Eu nunca soube desse talento nele, acho que nem ele mesmo sabia.
Zé Sereno parece agora ter superado seus 853 dias, tem um agente da editora trabalhando dia-a-dia com ele. Como seu trabalho caiu no gosto da editora, está tendo muito incentivo em publicidade e a tiragem inicial planeja vai além do que a média dos novos escritores.
O filósofo espanhol Ortega Y Gasset uma vez escreveu: “eu sou eu e minhas circunstâncias”. Já o poeta Fernando Pessoa gostava de dizer que havia “um eu profundo e os outros eus”. Zé Sereno não acredita
nesses pensadores, tornou-se excêntrido demais para isso. A diferença é que agora ele pode.
E o melhor de tudo, sempre que podemos estamos ainda naquela mesma mesa.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Lolita
Sentir todos os dias a solidão rastejar na minha pele como um ar frio adentrando as mangas do casaco até chegar ao ventre, parece uma doença. A solidão é também um mal físico, não só emocional. Carregar esse fardo consigo dia após dia infecta a vida e tentar disfarçá-la com mimos, certas "companhias" e bebidas pode adiantar a doença para uma fase terminal.
Tenho conhecido pessoas novas, algumas mulheres interessantes, outras nem tanto. Não é um ato de busca, é só de liberdade, uma liberdade mental do tipo que te faz frequentar lugares diferentes com pessoas mais diferentes ainda. De todas as pessoas que conheci, destaca-se uma certa mulher. Não é o tipo de pessoa que teria interesse, apesar das curvas. Mas seu charme provoca em mim os sentimentos mais carnais. Seu tom de voz sedutor, seus lábios carnudos, seus cabelos negros e lisos, relativamente curtos como os de Lois Lane na década de oitenta, seus olhos brilhantes, redondos e absolutamente negros como o breu da noite mais sombria que possa imaginar. Tudo isso é muito provocativo. E o que ainda pior, a reciprocidade do afeto notada em cada conversa, ligação ou mensagem de texto. Gente assim é Deus quem faz, mas o diabo é quem tempera.
O ideal seria evitar um envolvimento, ou até mesmo me afastar. Há aquele ditado que diz algo como "essa mulher é chave de cadeia". Por outro lado há aquele em que diz "a melhor maneira de se livrar de uma tentação é cedendo". Prefiro este último.
Convidei para sair uma vez, outra vez e mais uma vez. Estávamos cada vez mais ligados, eu atento a cada suspiro, ela curtindo os momentos despreoculpadamente. Ainda não havia acontecido nada, não por ausência de desejo. Na verdade estávamos nos prendendo para não arrancarmos o pescoço um do outro, tamanha euforia que corria em nossos sangue juvenil a cada despedida. Ambos sabíamos que era inevitável.
De todos os encontros um foi mais íntimo. Esse último. Ela veio para meu apartamento, todos os amigos de república estavam em suas respectivas cidades. Era só eu, ela, um bom vinho que havia comprado para ocasião e um filme (Lolita, baseado em romance do escritor russo Vladimir Nabokov, publicado em 1955 pela primeira vez).
Em nosso quarto ou quinto gole de vinho, nos vinte primeiros minutos de filme, ela virou seus dois negros olhos para mim, deu um sorriso com o canto da boca e retornou para o filme. Evidentementemente que não consguia mais prestar atenção no filme (já o tinha assistido três vezes na versão de 1997 dirigida por Adrian Lyne e outras duas na primeira versão, a do famaso diretor Stanley Kubrick, em 1962). Se havia alguém cauteloso ali do lado dela, esse alguém não existia mais, toda a racionalidade foi perdida no ato.
Depois de mais uns quinze minutos, ela já estava sob meus braços, e num movimento brusco posou seu corpo em cima do meu, me surpreendendo com tamanha agilidade e com seu poder de dominação. Começou a rir para mim, mas sem amostrar os dentes, fitando-me com os seus grandes olhos negros e retirando com sua mão direita uma mecha de seu cabelo que ficara entre as lábios. Eu estava absolutamente sem ação, exceto pela minha euforia que agora já era perciptível. Retribuí o sorriso numa tentativa de amenizar minha face de surpresa e levando por menos toda minha euforia. Ela se aproximou do meu peito. À essa altura minha camisa de botão já se encontrava semi-aberta. Chegou um pouco mais perto do meu rosto e com um toque sutil encostou seus lábios nos meus e os retirou imediatamente, voltando a fitar-me com seus olhos, agora mais brilhantes do que nunca. Minha mão direita passeou pelos seus cabelos, nesse instante senti um calafrio vindo de seu ventre, e quando finalmente tentei tomar posição da situação, ela recuou e retornou a vidrar seus olhos no filme e sua mão na taça de vinho. Não tive outra escolha, a não ser acatar tudo aquilo. Ela venceu, tinha exercido todo o domínio sobre mim.
Continuamos com o filme e o vinho. Havia selecionado o filme por sua história fantástica, seu poder atrativo e pelas cenas um pouco mais fortes, evidentemente. Só não iria prever que agora eu seria o professor de poesia francesa Humbert e ela Dolores Haze (a Lolita do filme, que apesar da idade tem sob o professor completo domínio). Se fosse para ser como no filme o final, teria escolhido outro. A primeira garrafa havia acabado, iniciamos a segunda enquanto o filme mal tinha chegado na metade. O tempo passava muito lentamente. Confesso que estava tenso. Nunca ninguém provocou tamanho sentimento de submissão em mim, mas já era tarde demais, não tinha como voltar e mesmo que tivesse, não voltaria.
Finalmente o filme terminou. Conversamos um pouco sobre o filme. Fiz uma comparação sarcástica, porém bem-humorada sobre ela e Lolita. Ela sorriu. Procuramos algo na geladeira para comer (eu sei, nada romântico). Achamos queijo e presunto. Cortamos em rodelinhas para nós petiscarmos com auxílio de um palito. Enquanto terminávamos o vinho, liguei o som. Num volume bastante confortável coloquei o álbum The Blues Never Die (1981) do cantor e gaitista Charlie Musselwhite. Pronto! Tudo perfeito. Um bom vinho, meia luz (mesmo com o final do filme deixei a luz propícia), blues e euforia. Bastante euforia.
Com um pouco de humor fui até ela, primeiro encostei meu rosto em seu pescoço enquanto ela me abraçava. Sua mão esquerda veio até meu queixo, erguendo-o. Agora seus lábios estavam na altura dos meus. Desta vez fui eu quem encostou nossos lábios sutilmente, retirando-os imediatamente quando percebi que ela ganhara euforia com aquilo. Estava tentando agora, não dominar a situação, mas chegar no mesmo nível, pelo menos. Nossos corpos ficaram quentes o bastante para aquela noite fria. Ela segurou minha mão, fazendo-a deslizar nas suas curvas. Enquanto minha mão subia desabotoei a parte superior de sua blusa, deixando um espaço suficiente para retirá-la sem complicações. Ela usava suas duas mãos, mas não as controlavam muito bem, pois precisei ajudá-la para desabotoar o resto da minha camisa. Em seguida ela retirou sua blusa, amostrando seu sutiã de cetim branco. Éramos um do outro.
Ela segurou minha mão esquerda, me puxando até o quarto.
Me empurrou até a cama e trancou a porta.
No outro dia acordei cedo, mas não abri os olhos. Imaginei que foi um sonho ou que ela não estaria mais lá. Fui surpreendido com sua mão sob meu peito e com uma pergunta: "Acordou?". Assenti com a cabeça e perguntei como ela descobrira. Ela disse que sentiu a mudança de minha respiração. Nesse momento pensei que ela fosse dizer alguma coisa brega, mas felizmente não o fez. Apenas ficou em silêncio, mirando meus olhos com seus vivos olhos negros. Não poderia ter sido melhor.
Jorgin, O Maneiro
sábado, 15 de janeiro de 2011
- E agora? - E agora estou bem.
O remédio também não sei, mas o exílio fez muito bem, obrigado. Certos lugares podem funcionar como uma Unidade de Tratamento Intensivo. Olinda foi minha UTI. Certos amigos parecem a equipe de Dr. House do seriado americano. Eles sentam, vêem os sintomas, os órgãos atingindos e o que mais couber. E só depois ajudam. Cada um com parcela de contribuição, assim como um time. Agora não me pergunte mais nada, estou satisfeito com o resultado e isso para mim basta.
Você que gostou de ver minha doença, não parece conformado com minha cura. Por que tantas perguntas? Por que querer me ver sangrando lentamente? Estou bem agora, não precisa mais de tudo isso.
Depois dessa minha fase, ainda tenho (in)sanidade para os sonhos. Antes murchos como maracujá velho, agora parecem mais maçãs lisinhas, coradas e doces.
As ambições? As ambições são poucas, mas são intensas e sadias. Me assustam essas suas perguntas, está parecendo querer me colocar contra a parede. Não precisa se referir a mim nesse tom grosseiro. Bem, está certo, eu respondo essa. Eu só queria ter a chance de interpretar o Capitão Garfo (com direito ao bigode postiço, capa vermelha, chapéu semi-pontudo preto com uma pena vermelha na extremidade, sotaque carregado e rígido e, na ponta de cada mão, escondidos sob as mangas compridas, um garfo e uma faca) para meu herdeiro birrento sem vontade de comer. Ou colocar as bonecas horríveis da Barbie no fundo do congelador enquanto incentivo à brincar pé-de-barra com os moleques na rua. Adoraria ver o garoto com a ponta do dedão ensanguentada por uma topada no paralelo da pracinha enquanto jogova bola.
Veja bem, o sol já nasceu para mim. Não é mais necessário isso. Estou bem, cada vez um pouco melhor. Você também. Então vamos seguir assim, cada um nasceu para aquilo que hoje é. Não pode mais interferir em mim, nem eu em você.
Não fique com tanta raiva, você ainda pode ser meu amigo (no dia em que tiver enjaulado).
Adeus,
Jorgin, O Maneiro.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
O Circo da Solidão
Reza a lenda que um dia, num circo longíquo de um interior nordestino, os dois melhores artistas do espetáculo se apaixonaram: O Palhaço e A Bailarina. Ou pior, O Palhaço se apaixonou pela Bailarina.
No começo O Palhaço tentava conquistá-la com sorrisos. Mas em sua graça não havia glamour. Pobre Palhaço. Todavia, A Bailarina soube reconhecer seus esforços, e ainda, ver nele outras atribuições brilhantes. Poderiam formar um belo casal e até que um dia finalmente formaram. Um trágico erro para o picadeiro, mas eles ainda não sabiam.
A Bailarina era bela, adimirável, facilmente apaixonante. Havia sutileza em seus movimentos, muitas curvas, e elegância. Tinha muito carisma e um sorriso que outrora ninguém mais veria outro como este.
O Palhaço, apesar da profissão, não tinha muito dom para as piadas, todavia A Bailarina ria, elegantemente sorria. Suas piadas pareciam inteligentes demais para seu público, mas não para A Bailarina. Ela compreendia tudo, e o melhor, gostava. Inerente a sua profissão, O Palhaço não tinha jeito algum com as mulheres. Nunca soube disfarçar sequer um arroto. Mas esse era o seu charme. O Palhaço era natural, e apesar de seu disfarce, era um ser humano completamente sensível e solidário.
Tudo ocorrera de modo perfeito. Perfeito demais para ser real. Os dois agora eram um só. Passavam a madrugada contando estrelas deitados no gramado verde e aconchegante, um pouco húmido pelo clima noturno, de uma modo bastante confortável. Suas cabeças, deitadas sob a grama, ficavam unidas e seus corpos em lados opostos. Adoravam fazer isso pois poderia conversar sussurando, olhar o céu carregado de estrelas e no ápice da paixão, se beijariam. A Bailarina até absorveu um pouco de humor para suas apresentações, assim como O Palhaço, que agora aprendera a ser mais sutil, porém sem perder o humor.
Ambos caminhavam para o caminho certo, o auge da união. Faziam muitos planos. Planos até demais.
Como nada nesse mundo pode ser belo o suficiente... Um novo integrante faz parte da trupe: O Mágico.
Ele não era mágico coisa alguma, fazia apenas ilusionismos chulos, mas a plateia adorava. Conseguiu conquistar cada vez mais adeptos e o circo tivera que acrescentar mais assentos. Todos o adoravam, exceto O Palhaço. O Palhaço sabia que O Mágico sempre tinha uma carta na manga. Era pobre de espírito e ninguém mais via, apenas O Palhaço. Estava se sentindo uma estrela no picadeiro. Seu camarim agora era o melhor.
A Bailarina sucumbiu aos ecantamentos do Mágico, pois este, possui a arte ilusionista da sedução. A sedução dele possui uma textura apenas externa, baseado em doces palavras, palavras que O Palhaço jamais dissera para Bailarina, mas sempre sentira profundamente mais que qualquer humano poderia pronunciar com qualquer que sejam as vogais e consoantes deste ou de qualquer planeta.
Pobre Palhaço, na noite anterior estava com as pupilas dilatadas de tantas juras de amor. Tudo em vão. Sumiu assim, rapidamente. Renegado pela Bailarina, O Palhaço sente a dor da traição, não essa traição carnal que humanos não cansam de comentar. Mas uma traição singela, que fez seu coração ser perfurado por milhões de pequenas agulhinhas, cujo efeito seria capaz até de derrubar o mais sensato e racional dos humanos.
Borrou sua maquiagem de tanto chorar. O Palhaço perdeu seu encanto. Já não tinha mais graça. Estava difícil manter o público nos assentos até que um dia simplesmente desistiu. O Palhaço queria sumir. Esquecer tudo aquilo, e recomeçar uma nova vida. Quando criança aprendera o ofício de sapateiro. Poderia ser um agora, mas lá no fundo sabia que o único sapato que sabia concertar eram os seus sapatos enormes, feitos no tamanho ideal para fazê-lo tropeçar mesmo quando não queria. Por tanto se dedicar ao esquecimento de sua desilusão, mais pensara nela. É natural. Numa reflexão, ele percebeu que os fracos e oprimidos fogem, pois assumem a derrota. O Palhaço definitivamente não era fraco. Era um vencedor, e um vencedor não se entrega, nao foge e jamais sucumbirá a derrota.
Por sua longa jornada no circo, é aceito novamente. Guarda em sua mente as piadas mais sarcásticas que só sua experiência fora capaz de criar. Foi um retorno brilhante. Ainda sente um pouco a frustração do amor perdido, mas agora fica muito bem enquanto está só. Ainda dói um pouco ver A Bailarina, mas sabe que o tempo faz mais convertidos do que a razão e até mesmo o coração.
O Mágico e A Bailarina ainda estão juntos, mas perderam a magia e boa parte do seu público.
Com um grande respeito a todos que se sentem bem sob a grande lona do circo,
Jorgin, O Maneiro.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Olinda, Eterna
O maior motivo que me faz ir até lá é um poema de Lourenço Barbosa (ou Capiba):
Olinda, Eterna
Quisera ver
Teu passado, Olinda,
Quando era ainda cheia de ilusão,
Para contemplar a tua paisagem
Para olhar teus mares,
Ver teus coqueirais,
Pular na rua com a meninada,
Brincar de roda e de cirandinha
Depois subir a ladeira do mosteiro,
Rezar a Ave Maria E nada mais,
Rezar a Ave Maria E nada mais
Olinda! Eterna!
Olinda! Eterna!
Por enquanto é apenas isso,
Jorgin, O Maneiro
Despedida
Minha história não é agradável, nem suave, nem harmoniosa como as histórias inventadas. Muito menos o final é feliz. Não é um conto de fadas, não é uma ficção. Só há insensatez, confusão, loucura e sonho, assim como a vida de todos os homens que não aguentam mais mentir a si mesmos.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Sem título #01
Jorgin, o Maneiro
domingo, 2 de janeiro de 2011
Mal do século
Naquele tempo eu lembro que morava numa república da capital. A tendência seria de lá partir para cima, mas não para baixo. Pois bem, voltei para casa dos meus pais, no interior. Pode rir, não tiro sua razão. O fato que é altos e baixos de anos atrás, hoje para mim não passam de retas pouco inclinados.
Tenho escutado os mesmos sons de sempre, assistindo cada vez menos a filmes, ido cada vez menos para apresentações musicais, shows e cinema. Por outro lado, tenho lido um pouco mais (que isso não me traga mais responsbalidade na edição desse blog, já que não tenho talento algum, nem para o amor, ou melhor, muito menos para o amor).
Tá vendo? Por que cargas d'água citei a palavra amor nesse contexto? Não havia sentido algum comentar isso, ainda mais referindo a um talento, e não como um sentimento como convém. Pode ser porque por mais que tente se enganar, por mais que queira uma carreira brilhante, por mais que queira ser um explorador, por mais que seja bem sucedido em tudo isso, jamais será completamente feliz. Isto é, há aqueles solitários que pensam em ser feliz com isso, mas se eles tivessem experimentado um grande amor na juventude, de certo, sentiram falta e estariam agora mirabolando alguma máquina do tempo para ter outra chance. Eu posso ser uma delas ou não, quem sabe?
Em se tratar da representação deste sentimento como um talento, vem, é claro, de experiências (evidentemente posso estar errado, e devo até estar, mas só afirmarei isso quando tiver um argumento convincente). É como se um discípulo de um certo monge, que certo dia trará uma cesta vazada (aquelas de palha mesmo) e pedisse para o seu discípulo trazer água do riacho para o topo da escadaria do mosteiro. Mas como poderia fazê-lo? Não restaria água alguma. Mesmo assim, teria que cumprir a tarefa do monge. Fez uma, duas, três... até perder a paciência com todas as tentativas frustradas e questionar o monge a respeito desta sua atividade, pré-julgada sem propósito, inútil, etc. Como todo monge (risos), sabiamente a atividade foi justificada: "Por mais que você passe por todas as situações possíveis, boas ou más, haverá uma sobrecargar de informações que jamais trará resposta alguma. Mas veja a cesta, não suportou segurar a água, porém ficou toda enxarcada. A mente não processa ou interpreta tudo para nos dar respostas, mas as experiências ficam, e ainda assim você aprende com elas".
Não sei se fui claro, acho que não.
Como diria Confúcio (ou Kung-Fu-Tse), filósofo chinês do século V-IV a.C.:
"Há três métodos para ganhar sabedoria: primeiro, por reflexão, que é o mais nobre; segundo, por imitação, que é o mais fácil; e terceiro, por experiência, que é o mais amargo".
Quanto a substituição do sentimento por talento se refere a habilidade. Um sentimento existe ou não existe. Não tem isso de existe um pouco, etc. Ou é ou não é. Todavia, uma habilidade pode ser intensa, mediana, fraca ou inexistente. Das duas uma, ou eu sou completamente hábil a ponto de melancolizar um filme de Almodóvar, ou pelo contrário, não tenho habilidade alguma, pois melancolizo um filme de Almodóvar. Não há mal pior que o ceticismo, porém até mesmo o amor que não compensa parece ser melhor que a solidão (como diria um amigo meu, "o mal do século").
Eu sei que não sou um poeta, um escritor, ou compositor. Eu sei que não escrevo coisas bonitas, mas isso não faz de mim menos artista quando se trata de sentir. Eu sei também, que posso ter até mais "habilidade" que certos cretinos que tem o dom da palavra.
Um forte abraço,
Jorgin, O Maneiro
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Com Um Pé No Mundo
Uma outra grande obra, desta vez musical, é o álbum “Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua” (1973), de Sérgio Sampaio (1947-1994), um marginal da MPB. Grandes composições acompanhadas de um som prazeroso. Não dá pra passar muito tempo sem este álbum. Faixas como “Leros, Leros e Boleros”, “Eu Sou Aquele Que Disse”, “Odete” e “Pobre Meu Pai”, por exemplo, me empolgam – esta última, principalmente. Hit como o da faixa-título jamais será esquecido. Está marcado a ferro na história. Um hino ao espírito juvenil, uma revolta contra a Ditadura Militar. Esse Kavernista da Cachoeira do Itapemirim é provocador.
Enfim...
Engraçado como sempre consigo achar algo para tirar o sono. Mesmo quando as coisas estão bem, muito bem por sinal (não ousaria citar a palavra perfeita – a perfeição pra mim é uma falha). Deve existir gente que não dorme por apreensão àqueles que, por azar, nasceram em um ambiente africano hostil, outros por causa do resultado da final do campeonato brasileiro, etc. A verdade é que nada disso me afeta. Não substancialmente. Penso agora em uma coisa: pôr os dois pés no mundo, de uma só vez, com olhos vendados e respiração ofegante.
Chega um momento em que se tem necessidade de deixar de ser menino. Não tem essa de adolescente, pré-adolescente, adulto, idoso e tal... As coisas são mais simples para mim. Existem Homens e Meninos. Só! E cheguei ao limite.
Acredito que com os dois pés no chão, eu conseguiria ir mais longe. Tem que agir, deixar de perder tempo com a cabeça, pessoas medíocres e sonhos amenos inúteis. Ser simplesmente mais realista. É cruel, mas tem que encarar. Logo logo consigo um emprego, moro com alguém e faço um filho (não necessariamente nessa ordem). Aí sim, depois disso tudo, dá pra voltar a ser Menino. Ou quem sabe isso tudo é muito drama.
A sensação de ser alguém dependente, desta vez, me revolta.
E é assim que venho perdendo minhas noites, me consultando com neurologista e procurando motivos pra me dopar com tarja preta.
E você aí, do outro lado, que está satisfeito com o que ganha e com o que tem, me diz qual é o segredo.
Um Abraço,
Jorgin, O Maneiro
domingo, 10 de agosto de 2008
Réquiem Para Um Sonho
Cecília (aquela flor),
Sinto por ter demorado tanto a escrever. Eu estava perdido, sem rumo, como se estivesse sem bússola. Vivo colidindo com as coisas, um tanto maluco, creio. O fato é que nunca estive perdido antes. Você era meu norte, meu destino. Sempre soube o caminho de casa, quando você era minha casa. Perdoe-me por ter ficado tão nervoso quando você partiu. Cometemos alguns erros e espero que não seja tarde para que Deus os repare. Mesmo assim, agora estou melhor. O trabalho me ajuda. Acima de tudo, você continua me ajudando.
Engraçado, você me apareceu em sonho ontem, com aquele sorriso que me prendia como um amante, embalado como uma criança. Tudo que lembro do sonho é uma sensação de paz. Acordei com essa sensação e tentei mantê-la enquanto foi possível. Não durou o suficiente para crer na solidão. Escrevo para lhe dizer que estou viajando rumo a essa paz. E para lhe dizer que sinto por muitas coisas. Sinto por não ter cuidado melhor de você, para que nunca tivesse um minuto de frio, medo ou aflição. Sinto por não ter buscado com afinco palavras para expressar o que eu sentia (eu falava tanto quanto um peixe). Sinto por não ter consertado a porta da varanda. Consertei agora. Sinto por ter brigado com você. Por não ter pedido mais desculpas. Eu era muito orgulhoso. Sinto por não ter feito mais elogios a tudo que vestia e ao modo como arrumava o cabelo. Sinto por não tê-la abraçado com tanta força que nem Deus poderia tirá-la. Esteja onde estiver, logo estarei contigo para acalentarmos esse pranto.
Com todo o amor, Jorgin.
PS: Um dia eu fui afetuoso, uma pena vocês não conhecerem essa minha fase.
