Embora a vida não tenha me tratado com amor, às vezes ela me brinda com pequenas alegorias gratuitas.
Sentir todos os dias a solidão rastejar na minha pele como um ar frio adentrando as mangas do casaco até chegar ao ventre, parece uma doença. A solidão é também um mal físico, não só emocional. Carregar esse fardo consigo dia após dia infecta a vida e tentar disfarçá-la com mimos, certas "companhias" e bebidas pode adiantar a doença para uma fase terminal.
Tenho conhecido pessoas novas, algumas mulheres interessantes, outras nem tanto. Não é um ato de busca, é só de liberdade, uma liberdade mental do tipo que te faz frequentar lugares diferentes com pessoas mais diferentes ainda. De todas as pessoas que conheci, destaca-se uma certa mulher. Não é o tipo de pessoa que teria interesse, apesar das curvas. Mas seu charme provoca em mim os sentimentos mais carnais. Seu tom de voz sedutor, seus lábios carnudos, seus cabelos negros e lisos, relativamente curtos como os de Lois Lane na década de oitenta, seus olhos brilhantes, redondos e absolutamente negros como o breu da noite mais sombria que possa imaginar. Tudo isso é muito provocativo. E o que ainda pior, a reciprocidade do afeto notada em cada conversa, ligação ou mensagem de texto. Gente assim é Deus quem faz, mas o diabo é quem tempera.
O ideal seria evitar um envolvimento, ou até mesmo me afastar. Há aquele ditado que diz algo como "essa mulher é chave de cadeia". Por outro lado há aquele em que diz "a melhor maneira de se livrar de uma tentação é cedendo". Prefiro este último.
Convidei para sair uma vez, outra vez e mais uma vez. Estávamos cada vez mais ligados, eu atento a cada suspiro, ela curtindo os momentos despreoculpadamente. Ainda não havia acontecido nada, não por ausência de desejo. Na verdade estávamos nos prendendo para não arrancarmos o pescoço um do outro, tamanha euforia que corria em nossos sangue juvenil a cada despedida. Ambos sabíamos que era inevitável.
De todos os encontros um foi mais íntimo. Esse último. Ela veio para meu apartamento, todos os amigos de república estavam em suas respectivas cidades. Era só eu, ela, um bom vinho que havia comprado para ocasião e um filme (Lolita, baseado em romance do escritor russo Vladimir Nabokov, publicado em 1955 pela primeira vez).
Em nosso quarto ou quinto gole de vinho, nos vinte primeiros minutos de filme, ela virou seus dois negros olhos para mim, deu um sorriso com o canto da boca e retornou para o filme. Evidentementemente que não consguia mais prestar atenção no filme (já o tinha assistido três vezes na versão de 1997 dirigida por Adrian Lyne e outras duas na primeira versão, a do famaso diretor Stanley Kubrick, em 1962). Se havia alguém cauteloso ali do lado dela, esse alguém não existia mais, toda a racionalidade foi perdida no ato.
Depois de mais uns quinze minutos, ela já estava sob meus braços, e num movimento brusco posou seu corpo em cima do meu, me surpreendendo com tamanha agilidade e com seu poder de dominação. Começou a rir para mim, mas sem amostrar os dentes, fitando-me com os seus grandes olhos negros e retirando com sua mão direita uma mecha de seu cabelo que ficara entre as lábios. Eu estava absolutamente sem ação, exceto pela minha euforia que agora já era perciptível. Retribuí o sorriso numa tentativa de amenizar minha face de surpresa e levando por menos toda minha euforia. Ela se aproximou do meu peito. À essa altura minha camisa de botão já se encontrava semi-aberta. Chegou um pouco mais perto do meu rosto e com um toque sutil encostou seus lábios nos meus e os retirou imediatamente, voltando a fitar-me com seus olhos, agora mais brilhantes do que nunca. Minha mão direita passeou pelos seus cabelos, nesse instante senti um calafrio vindo de seu ventre, e quando finalmente tentei tomar posição da situação, ela recuou e retornou a vidrar seus olhos no filme e sua mão na taça de vinho. Não tive outra escolha, a não ser acatar tudo aquilo. Ela venceu, tinha exercido todo o domínio sobre mim.
Continuamos com o filme e o vinho. Havia selecionado o filme por sua história fantástica, seu poder atrativo e pelas cenas um pouco mais fortes, evidentemente. Só não iria prever que agora eu seria o professor de poesia francesa Humbert e ela Dolores Haze (a Lolita do filme, que apesar da idade tem sob o professor completo domínio). Se fosse para ser como no filme o final, teria escolhido outro. A primeira garrafa havia acabado, iniciamos a segunda enquanto o filme mal tinha chegado na metade. O tempo passava muito lentamente. Confesso que estava tenso. Nunca ninguém provocou tamanho sentimento de submissão em mim, mas já era tarde demais, não tinha como voltar e mesmo que tivesse, não voltaria.
Finalmente o filme terminou. Conversamos um pouco sobre o filme. Fiz uma comparação sarcástica, porém bem-humorada sobre ela e Lolita. Ela sorriu. Procuramos algo na geladeira para comer (eu sei, nada romântico). Achamos queijo e presunto. Cortamos em rodelinhas para nós petiscarmos com auxílio de um palito. Enquanto terminávamos o vinho, liguei o som. Num volume bastante confortável coloquei o álbum The Blues Never Die (1981) do cantor e gaitista Charlie Musselwhite. Pronto! Tudo perfeito. Um bom vinho, meia luz (mesmo com o final do filme deixei a luz propícia), blues e euforia. Bastante euforia.
Com um pouco de humor fui até ela, primeiro encostei meu rosto em seu pescoço enquanto ela me abraçava. Sua mão esquerda veio até meu queixo, erguendo-o. Agora seus lábios estavam na altura dos meus. Desta vez fui eu quem encostou nossos lábios sutilmente, retirando-os imediatamente quando percebi que ela ganhara euforia com aquilo. Estava tentando agora, não dominar a situação, mas chegar no mesmo nível, pelo menos. Nossos corpos ficaram quentes o bastante para aquela noite fria. Ela segurou minha mão, fazendo-a deslizar nas suas curvas. Enquanto minha mão subia desabotoei a parte superior de sua blusa, deixando um espaço suficiente para retirá-la sem complicações. Ela usava suas duas mãos, mas não as controlavam muito bem, pois precisei ajudá-la para desabotoar o resto da minha camisa. Em seguida ela retirou sua blusa, amostrando seu sutiã de cetim branco. Éramos um do outro.
Ela segurou minha mão esquerda, me puxando até o quarto.
Me empurrou até a cama e trancou a porta.
No outro dia acordei cedo, mas não abri os olhos. Imaginei que foi um sonho ou que ela não estaria mais lá. Fui surpreendido com sua mão sob meu peito e com uma pergunta: "Acordou?". Assenti com a cabeça e perguntei como ela descobrira. Ela disse que sentiu a mudança de minha respiração. Nesse momento pensei que ela fosse dizer alguma coisa brega, mas felizmente não o fez. Apenas ficou em silêncio, mirando meus olhos com seus vivos olhos negros. Não poderia ter sido melhor.
Jorgin, O Maneiro
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
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