quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O Circo da Solidão

Uma vez me disseram que quando se está triste há muito mais assunto.


Reza a lenda que um dia, num circo longíquo de um interior nordestino, os dois melhores artistas do espetáculo se apaixonaram: O Palhaço e A Bailarina. Ou pior, O Palhaço se apaixonou pela Bailarina.

No começo O Palhaço tentava conquistá-la com sorrisos. Mas em sua graça não havia glamour. Pobre Palhaço. Todavia, A Bailarina soube reconhecer seus esforços, e ainda, ver nele outras atribuições brilhantes. Poderiam formar um belo casal e até que um dia finalmente formaram. Um trágico erro para o picadeiro, mas eles ainda não sabiam.

A Bailarina era bela, adimirável, facilmente apaixonante. Havia sutileza em seus movimentos, muitas curvas, e elegância. Tinha muito carisma e um sorriso que outrora ninguém mais veria outro como este.

O Palhaço, apesar da profissão, não tinha muito dom para as piadas, todavia A Bailarina ria, elegantemente sorria. Suas piadas pareciam inteligentes demais para seu público, mas não para A Bailarina. Ela compreendia tudo, e o melhor, gostava. Inerente a sua profissão, O Palhaço não tinha jeito algum com as mulheres. Nunca soube disfarçar sequer um arroto. Mas esse era o seu charme. O Palhaço era natural, e apesar de seu disfarce, era um ser humano completamente sensível e solidário.

Tudo ocorrera de modo perfeito. Perfeito demais para ser real. Os dois agora eram um só. Passavam a madrugada contando estrelas deitados no gramado verde e aconchegante, um pouco húmido pelo clima noturno, de uma modo bastante confortável. Suas cabeças, deitadas sob a grama, ficavam unidas e seus corpos em lados opostos. Adoravam fazer isso pois poderia conversar sussurando, olhar o céu carregado de estrelas e no ápice da paixão, se beijariam. A Bailarina até absorveu um pouco de humor para suas apresentações, assim como O Palhaço, que agora aprendera a ser mais sutil, porém sem perder o humor.

Ambos caminhavam para o caminho certo, o auge da união. Faziam muitos planos. Planos até demais.

Como nada nesse mundo pode ser belo o suficiente... Um novo integrante faz parte da trupe: O Mágico.

Ele não era mágico coisa alguma, fazia apenas ilusionismos chulos, mas a plateia adorava. Conseguiu conquistar cada vez mais adeptos e o circo tivera que acrescentar mais assentos. Todos o adoravam, exceto O Palhaço. O Palhaço sabia que O Mágico sempre tinha uma carta na manga. Era pobre de espírito e ninguém mais via, apenas O Palhaço. Estava se sentindo uma estrela no picadeiro. Seu camarim agora era o melhor.

A Bailarina sucumbiu aos ecantamentos do Mágico, pois este, possui a arte ilusionista da sedução. A sedução dele possui uma textura apenas externa, baseado em doces palavras, palavras que O Palhaço jamais dissera para Bailarina, mas sempre sentira profundamente mais que qualquer humano poderia pronunciar com qualquer que sejam as vogais e consoantes deste ou de qualquer planeta.

Pobre Palhaço, na noite anterior estava com as pupilas dilatadas de tantas juras de amor. Tudo em vão. Sumiu assim, rapidamente. Renegado pela Bailarina, O Palhaço sente a dor da traição, não essa traição carnal que humanos não cansam de comentar. Mas uma traição singela, que fez seu coração ser perfurado por milhões de pequenas agulhinhas, cujo efeito seria capaz até de derrubar o mais sensato e racional dos humanos.

Borrou sua maquiagem de tanto chorar. O Palhaço perdeu seu encanto. Já não tinha mais graça. Estava difícil manter o público nos assentos até que um dia simplesmente desistiu. O Palhaço queria sumir. Esquecer tudo aquilo, e recomeçar uma nova vida. Quando criança aprendera o ofício de sapateiro. Poderia ser um agora, mas lá no fundo sabia que o único sapato que sabia concertar eram os seus sapatos enormes, feitos no tamanho ideal para fazê-lo tropeçar mesmo quando não queria. Por tanto se dedicar ao esquecimento de sua desilusão, mais pensara nela. É natural. Numa reflexão, ele percebeu que os fracos e oprimidos fogem, pois assumem a derrota. O Palhaço definitivamente não era fraco. Era um vencedor, e um vencedor não se entrega, nao foge e jamais sucumbirá a derrota.

Por sua longa jornada no circo, é aceito novamente. Guarda em sua mente as piadas mais sarcásticas que só sua experiência fora capaz de criar. Foi um retorno brilhante. Ainda sente um pouco a frustração do amor perdido, mas agora fica muito bem enquanto está só. Ainda dói um pouco ver A Bailarina, mas sabe que o tempo faz mais convertidos do que a razão e até mesmo o coração.

O Mágico e A Bailarina ainda estão juntos, mas perderam a magia e boa parte do seu público.




Com um grande respeito a todos que se sentem bem sob a grande lona do circo,
Jorgin, O Maneiro.

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