Sob qualquer forma ilustre de demonstrar afeto, nenhuma delas pode ser tão eternizada quanto um registro escrito. Me retiro deste lugar sem saber se ainda retornarei, mas com uma sensação confortante de dever (quase) cumprido. Trago implícito nessas palavras as experiências que este lugar me trouxe, por todo amor que houvera, por cada esquina mal pavimentada, por suas praças e palmeiras, pelo erotismo de suas paisagens, pelos bares, vielas sombrias e bocas, que já acalentaram a tanto tempo minha alma. Não sei para onde estou indo, mas sei que não será o meu lugar. O destino prega peças, e é impossível evitá-lo porque a natureza humana é fraca, a carne é fraca e um desejo incendeia minhas entranhas alimentanado uma ilusão de mudanças que sei que jamais ocorrerão.
Faz tanto tempo que não passo em certos lugares. Minha memória hoje é minha principal inimiga. Onde está Bené? Onde está o senhor que passava pela rua de minha avó tocando um triângulo enquanto vendia cavaco-chinês? Onde está a preguiça que vivia nas árvores da praça? Cadê aqueles garotos todos com quem joguei bola na rua de paralelos, hoje asfaltada? Cadê aquelas meninas que na flôr da puberdade criavamos joguinhos para destribuir beijos? Onde está minha primeira paixonite de tantos anos atrás? Eu não vejo mais ninguém soltando pipa, jogando bolas de gude, peão ou colando figurinhas. Tenho certeza de que já não sou o mesmo garoto que saia com uma biscicletinha amarela até a loja de conveniência do posto para comprar picolé, era só o que eu precisava para rir. Hoje tenho receio de olhar no fundo dos meus olhos pelo reflexo do espelho e não ver mais o que um dia eu fui. Sou apenas um alcoolatra prostituído, corrompido pelas imoralidades. A inocência é muito fácil de se perder e impossível de ganhar.
Não acredito num recomeço, mas julgo minha atitude por que não adianta ir contra o mar que por mais que haja esforço, ele sempre vence, sempre leva. Parece ser o curso natural das coisas, muito mais forte que os desejos e a ambição de criar uma família aqui, nesse lugar imperfeito e poético, ainda sustentando um cheiro de terra molhada ao chover juntamente com a brisa úmida.
O caminhão de mudanças está aguardando o envio de material. Me choca essa imagem da partida e a sensação de que agora jamais retornarei para ficar. Que esse meu quarto ficará vazio, se tornando um quarto para visitas talvez ou o tão sonhado escritório que meu pai almeja. Me choca voltar nas férias para ser uma 'visita', reunir os parentes e amigos para festejar minha vinda. Ah, quantas recordações.
Pode ser normal para as pessoas, mas quem sempre fere meu coração sou eu e mais ninguém.
Hoje quero crer que nada foi em vão.
E só.
Estância, abril de 2011.
Jorgin, O Maneiro.
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Hã?! Estância não será mais sua estância? Ou isso é o passado sendo recontado? Ou é pura ficção?
ResponderExcluirEstância sempre será o meu recanto acolhedor, mas agora é tempo de partida e não consigo abrir mão de tornar isso um pouco mais melancólico.
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