Ele pesava há dois meses um total de 64,5 quilos. até agora perdeu 2,5 quilos, o que dá em média 42 gramas a menos por dia. O motivo é seu coração. Não no sentido dele ter algum problema cardiovascular, foi a dor de um amor jamais correspondido que infelizmente só descobriu depois de passados 853 dias. Uma traição no meu ponto de vista.
O coração desse pobre soldado vinha batendo meio coisado, não existia consolo para reduzir sua disritmia, não existia travesseiro suficiente para cobrir seus sonhos tortos, nem cobertor para acalentar seus devaneios, nem viagens para fugir do mundo.
Entre um copo e outro, o peito do infeliz emitia um estranho ruído. De vez em quando na mesa, a gente escutava um estranho zumbido. Eu tinha medo de acompanhá-lo numa embriaguez mútua como sempre fazíamos nos bons tempos. Desde que ela foi embora, assim, sem mais nem menos mesmo, no auge da paixão apesar dos dias todos transcorridos, ninguém mais parece estranhar quando o pobre se derrete e chora. Estava se tornando um hábito. E eu estava terrivelmente mal por não ter condições de ajudá-lo, meu grande camarada de tantos tempos agora parecia ter se entregado. Não tinha como animá-lo, ele acabava sempre tudo com um discurso inconformado, e todos acabavam concordando. Não havia como relutar contra seus argumentos, o coração sempre acerta quando colide com a razão.
Zé Sereno optou se distanciar de nós amigos, pelo que consta iniciou uma fase negra da sua vida. Álcool já era nosso costume, apenas o volume ingerido que assustava, e segundo as más línguas, o pobre soldado estava no ácido. Zé Sereno não era mais o mesmo, era apenas sua sombra. Eu tentava me lembrar como ele era sem o ácido, como ele era sem o litro de conhaque, mas foi tudo apagado da minha mente. De Zé Sereno só lembrava de sua sombra.
Foram alguns longos dias e ele reapareceu, no mesmo bar, em nossa mesa. Sua aparência estava melhor, apesar de sua pele relativamente flácida para seu sangue jovem e dos ossos da maçã do rosto visíveis. Conversamos um pouco sobre coisas alheias a tudo isso, alguns vezes sua feição esboçava alguns sorrisos. Depois de algumas horas ele me contou que estava superando tudo isso: "A melhor maneira de esquecer
uma mulher, é transformá-la em literatura". Curioso, jamais tivera pensando nisso, mas fazia muito sentido.
O convalescente Zé Sereno escrevia como um louco. Eu li um pouco de seus rascunhos. Incrível, como a arte pode dar dimensões ricas e belas a uma vida tão acidentada, recheada de rancor e amargura?
Suas ambições literárias eram grandes demais, e potencial, no meu ponto de vista, tinha tanto que sobrava. Cada letra, cada palavra reproduziu em mim sintomas únicos, intensos. Não havia como ler rapidamente, era preciso degustar aos poucos, para dar tempo de digerir toda a informação e sentimentos envolvidos naquilo. Eu nunca soube desse talento nele, acho que nem ele mesmo sabia.
Zé Sereno parece agora ter superado seus 853 dias, tem um agente da editora trabalhando dia-a-dia com ele. Como seu trabalho caiu no gosto da editora, está tendo muito incentivo em publicidade e a tiragem inicial planeja vai além do que a média dos novos escritores.
O filósofo espanhol Ortega Y Gasset uma vez escreveu: “eu sou eu e minhas circunstâncias”. Já o poeta Fernando Pessoa gostava de dizer que havia “um eu profundo e os outros eus”. Zé Sereno não acredita
nesses pensadores, tornou-se excêntrido demais para isso. A diferença é que agora ele pode.
E o melhor de tudo, sempre que podemos estamos ainda naquela mesma mesa.
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