Dona Lalinha, sessenta e poucos anos, herdeira de um poderoso latifundiário goiano, especialista em direito civil, bem casada, mãe de dois filhos, Cibele e Alberto, seu principal hobby é cozinhar para o único neto. Seria assim se ela não tivesse entrado na guerrilha e fosse assassinada em 1969.
Desde muito jovem sentia-se independente e tinha um espírito aventureiro, até que com o estopim do golpe de sessenta e quatro frustrou-se e mobilizou todo o ardor do seu sangue no desenvolvimento da guerrilha armada brasileira. Isso aos dezessete anos de idade, quando fugiu da fazenda do pai. Ainda na infância recorda facilmente do seu gen agressivo. Enquanto seu pai proibia a garota de sequer aproximar-se do matadouro de bois em sua propriedade, ela sempre dava um jeito de fugir e participar dessa chassina. Nos primeiros momentos Lalinha se assustava com carnificina, com os ruídos que o animal produzia, com a violência do impacto, com a quantidade de sangue esvaziando o corpo do animal. Isso durou pouco. Acostumou-se com a atividade e convenceu o funcionário de seu pai para realizar sua primeira vítima. Lalinha segurou firme o cabo de uma madeira e num movimento rápido atingiu a cabeça do animal, infelizmente a força da garota não foi suficiente e recebeu ajuda no segundo golpe. O barulho da madeira atingindo o crânio do animal sempre provocou uma vibração sonora agradável para seus ouvidos. Com o animal já ao chão e ainda com os olhos abertos, Lalinha perfurou com uma espécie de canudo metálico o interior da nuca do boi, o sangue espirrando e molhando suas mãos foi um atraente sinal de conquista. Ela tão pequena, conseguiu exercer dominio sob um animal daquele porte e matá-lo em três minutos. Nos dias seguintes Lalinha estava viciada.
Ainda não sabia ao certo se o envolvimento com a guerrilha era pelo desejo revolucionário ou pela adrenalina que um tiro certeiro no inimigo produzia. Umas pessoas tem vocação para medicina, outras para engenharia, Lalinha acreditava ter vocação para matar.
Quando não seria o exército um valhacouto de torturadores? Esses Lalinha sentia mais prazer no combate armado. Passava horas polindo suas armas e praticando o tiro. Apesar de ser a mais jovem do grupo, era a mais destemida, cruel e, de um certo modo, eficiente. Passou a usar o pseudônimo de Augusta, e desde que fugira de casa jamais viu sua família. Lalinha não se incomodava com as noites mal dormidas, com as comidas mal nutridas e as roupas mal lavadas, pois tinha certeza que no fim do dia valeria a pena, seja pelo fortalecimento de seu grupo, seja pelo prazer de fazer mais uma vítima.
Uma missão de captura do seu grupo ordenada pessoalmente por Costa e Silva, conduziu um batalhão de soldados para área de acesso daqueles guerrilheiros, certos setores da população não gostavam da ideia de ter essa gente em sua cidade, e por tanto denunciavam, tornando mais fácil o trabalho dos comendatários. Para infelicidade de Lalinha, nesse corpo de ação havia um cabo em especial, o Oliveira. As únicas leis que esse militar conhecia eram as leis da vingança e da ordem. As ações de Augusta eram conhecidas dentro dos batalhões, de certo modo tornou-se um mito sua personificação. Dentre essas ações Oliveira recorda de uma, a qual trazia um gosto especial pela busca de Augusta: seu pai, o Comandente Oliveira fora assassinado enquanto saia do cinema na capital. Rumores indicaram a presença de uma jovem, que apesar de estar em grupo, fez questão de dar o tiro de misericórdia. Essa jovem era Lalinha, ou Augusta para os militares. O cabo Oliveira jamais superou a morte de seu pai, e jurou a condenação daquela alma impiedosa.
Depois de duas semanas seguindo os rastros em mata densa, numa noite de agosto de 1969, o batalhão repreende os guerrilheiros e há captura de treze deles, além de duas mortes. Para infelicidade do cabo Oliveira, Augusta não estava naquele meio. Sem outra solução Oliveira olha para as faces assustadas daqueles prisioneiros e vê no resto de um deles um germe de desconfiança. Seleciona este para um interrogotário, o Genuíno.
Genuíno era um sujeito nitidamente revolucionário, um admirador de Che Gue Vara, mas algumas de suas ações eram questionáveis para aquele grupo. Ele era o cabeça de informação e conseguia muitas delas por meio de propina, com recursos oriundos do mercado negro de munições com tropas esquerdistas bolivianas. Sua dignidade sempre foi duvidosa entre seus companheiros.
Oliveira manda Genuíno sentar-se numa cadeira de madeira com uma das pernas tombando, dá um boa noite que é rapidamente respondido no mesmo tom de voz, pede ao outro soldado para amarrar as mãos dele atrás do encosto da coluna, e retira imediatamente sua calça bastante surrada. Mas Genuíno não demonstra qualquer sinal de medo, raiva ou tristeza, simplesmente está indiferente, isso definitivamente parecia nao o intimidar. Confiante demais para os pudores de Oliveira. O Cabo retira de sua maleta um equipamento simples, eficiente e já conhecido entre os torturadores: um par de fios desencapados e eletrificados, ligados a uma bateria. Oliveira questiona sobre Augusta, mas Genuíno não parecia ter ouvido.
O volume dos gritos passou a ficar cada vez mais intenso até que Oliveira respira fundo e calmamente reinicia:
- Como você não está cooperando, vamos recomeçar. Tá vendo esses fios? Quer vê-los sobre seus testículos? Garanto que suas bolas explodirão antes de você desmaiar de dor. Vamos ver até quando você sua masculinidade resiste.
Ao aproximar os fios a cerca de dois palmos Genuíno responde:
- Sei exatamente onde o resto do grupo está, sei onde estarão e conheço cada passo de Augusta, ou Lalinha como nós a conhecemos.
Foi o suficiente para Oliveira abrir um sorriso, guardar sua parafernália e iniciar uma conversa branda entre bandido e bandido, sob a garantia de anistiar Genuíno.
Na manhã seguinte os militares encontram facilmente o resto dos guerrilheiros e uma troca de tiros agressiva surpreende a calmaria que a floresta está acostumada. A guerrilha possui poucas alternativas, já que está com o grupo defasado e foi pega de surpresa pela tropa militar. Não foi difícil Oliveira encontrar a jovem e atingi-la em sua coxa esquerda, desequilibrando Lalinha até que tombe na terra molhada.
- Renda-se a não ser que deseja morrer!
Oliveira estava tenso com aquela situação, mas a jovem caída ao chão não parava de disparar contra o cabo e não deu um piu sequer. Sua munição evaporou num instante e a jovem não parecia apelar para a rendição.
- Qual é seu nome garota?! - Oliveira gritava euforicamente - Qual é o seu nome, porra?!
Num espasmo Oliveira segurou os cabelos da jovem, inclinando sua cabeça para frente, num gesto agressivo, mas que possibilitava olhar no fundo dos seus olhos. E tornou a gritar:
- Porra, me diz o seu nome ou te mato agora? É você que é a Augusta?
Lalinha retribui o olhar, e abre um leve sorriso no canto da boca:
- Guerrilheira não tem nome.
Oliveira dispara imediatamente com sua trinta e oito sob seu maxilar. Nesse momento Dona Lalinha deixa de existir.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Há muito tempo, quando o filme "Meu ódio será a sua herança", de Sam Peckinpan, estreou, uma jornalista levantou a mão na entrevista coletiva e perguntou o seguinte: "Por que diabos você tem de mostrar tanto sangue espalhado por toda parte?". Ela estava muito excitada e intrigada com a questão. Um dos atores, Ernest Borgnine, pareceu um pouco perplexo e respondeu com sutileza. "Senhora, já viu alguém levar um tiro e não sangrar?"
ResponderExcluir