quinta-feira, 1 de março de 2012

Tonho Tristonho

Não que fosse um ser genuinamente deprimido, na verdade, de tudo que havia em sua volta, era o mais espirituoso. O que ocorre é que Tonho Tristonho nasceu com uma maldição: tudo em que ele encosta torna-se triste, inclusive as pessoas. Às vezes rapidamente, às vezes de um modo mais lento, não há especificamente uma lógica nessa metamorfose, apenas o fato de que virá. Ao ligar o rádio, repentinamente as canções tornavam-se mais alcoolizadas, com uma melodia boêmia natural dos poetas mortos pela tuberculose, ou solidão.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Pernambucana

Da pele clara, dos cabelos claros e olhos escuros, um fruto da mistura do sangue holandês nas terras do cacique do litoral do Recife. Uma dançarina desritmada de um frevo rasgado, que agita a cabeleira timidamente e mexe a saia rodada exibindo o cordãozinho de nós no tornozelo direito, um troféu das batalhas do coração que leva consigo dia e noite à altura do calcanhar. Não sabe odiar ninguém, mas tem medo de parecer com alguém. Não existe sol maldoso que insista em colorir de tom avermelhado a epiderme para queimá-la, apenas para apimentar um pouco mais sua presença, não existe lua insossa que aos seus olhos esconda coelhinhos orelhudos nas crateras da sua crosta, seja qual for das sessenta e quatro luas jupterianas.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Pavio do Destino

As semanas seguiam terríveis para Armando, afinal de contas naturalmente ficou intimidado com todo aquele ensaio da cigana Julieta e sua alma passou a enxergar tudo a sua volta com lentes que filtravam o receio e a desconfiança, um novo prisma cheio de austeridade. Para quem recusava as informações das palmas de suas mãos, Armando se mostrou ser um crente fervoroso, assumidamente fiel à ideia de que aquela seria a sua realidade.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Não É Só Mais Um Conto de Natal (Parte 1)

Caminhava em passos longos, olhando para todos os lados inclusive para trás. Foi assim durante toda a última semana de dezembro, mas de nada adiantou.



 
Os ciganos acabaram de chegar à cidade, como era de costume no final dos anos. Previam o futuro e havia apresentações de animais exóticos e até alguns espetáculos circenses em troca de dinheiro ou qualquer objeto de valor.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Cem Anos de Solidão

Dona Lalinha não sabia mais o que fazer. Elias Prudente nunca deixava as coisas no lugar certo, trocava tudo de posição. Lá em seu pensionato, naquela semana depois que Elias e Selena confirmaram o romance, notou que ele estava com a cabeça a mil, todo confuso com as coisas ao seu redor e confundindo tudo mais ainda. Não sabia que espécie de delírio era aquele e nem como abordar o jovem para tomar caso da situação, pois realmente naquele pensionato estava tudo de ponta cabeça.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Aquela Moça


Um guarda-chuva laranja no céu prateado, e o sol escondido dentre as nuvens a lhe vigiar. Era assim por onde passava e sua presença não permitia outro assunto. Para quê tanta lindeza num ser só? Cada vez que aparecia renovava as desilusões de Elias Prudente, que desde que saíra da república soteropolitana aprendeu a conviver consigo mesmo num pensionato barato, alternando e integrando os desafios de sua mente maliciosa e gentil ao mesmo tempo, sempre invocado como aquela presença o atraía.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O Primeiro Dia De Elias Prudente

Enfim chegou o outono, a estação preferida de Elias Prudente, que de prudente mesmo só tinha o sobrenome. Nem fria, nem quente, nem colorida, apenas bela como a tristeza.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Verão de 2008

Observador detalhista e matuto que é, às vezes deparava-se com pessoas e seus movimentos, gestos, faces, vozes, roupas e as julgava. Imediatamente julgava. Por mais que o bom senso seja contrário a esse tipo de atitude, Nelson vê apenas ironia. Não se pode ir contra a natureza humana, e essa natureza é falha. O bom senso representa apenas o que os humanos querem demonstrar o que são e não o que de fato são. Ele é honesto o bastante para admitir isso.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Sangue Latino

Duas coisas provocam em mim bastante nostalgia. A primeira é o barulho da locomotiva passando nas madrugadas em direção à capital, a segunda é o latido dos cães ao anoitecer. Ambas recordam minha infância, o tempo que havia sonhos e esperanças. Hoje não mais.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Sem título #02

Como é que pode alguém nascer compositor, um trabalhador dos versos, prosas e das coisas da vida, e depois de 55 anos nas costas, surgir certo doutor com aparência esnobe de 28, cabelo ao gel, estetoscópio amarrado na nuca e determinar o que devo ou não fazer? Prefiro morrer com dignidade.


Carlos Cachaça, abril de 1987.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Tonho Cabeleira

Aquele foi o pior dia de sua vida.


Antônio, mais conhecido como Tonho Cabeleira, possuía um vasto aglomerado de fios castanhos sobre a sua cabeça. Cuidava deles como um aquariofilista experiente cuida de um cardume de peixes discus adultos, com toda a cautela possível.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A valsa

A lua entrou sem pedir licença. Esta noite será decisiva para Amaral, afinal de contas o baile se aproxima e terá que passar na casa de Cecília, sob a supervisão Agostino, o pai da moça, e conduzi-la até o salão. Amaral não sabe dançar e revela em seus pensamentos mais profundos um encantamento pela jovem. O que as próximas horas guardam?

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O Bunda

Sentava-se sempre ao fundo, nas últimas carteiras da sala de aula enquanto criança. Não era mudo, mas não conheciam sua voz. Sempre alerta, um observador nato, passivo, detalhista. Evitava sempre contato direto com pessoas, evitava interferir nos fatos e interagir com objetos. Esse era O Bunda.

sábado, 18 de junho de 2011

Marechal, O Grande Bagre Azul

O lago estava frio, a manhã cobriu a malha d'água com uma névoa uniformizada. Mesmo com todo o frio não abdiquei da cerveja gelada, um costume originado dos meus antepassados sul-americanos. Subi na canoa, remei até o centro do lago onde a água era escura e não muito profunda, preparei o equipamento e lancei o anzol. Particularmente pesco apenas com anzol para dar ao peixe a oportunidade da decisão e optar entre morder ou não a isca, capturando apenas os mais desatentos, para não contrariar Darwin e seus estudos sobre a seleção natural das espécies. Assim como para os humanos, o estado esperto nos peixes tem que ser um tremendo vórtice, um vir-a-ser.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Esse tal de Tao

Não sou um estudioso da taoísmo, mas se me permite senhor leitor, vou divagar um pouco sobre ele e os ensinamentos de Lao Tsé.