sábado, 18 de junho de 2011

Marechal, O Grande Bagre Azul

O lago estava frio, a manhã cobriu a malha d'água com uma névoa uniformizada. Mesmo com todo o frio não abdiquei da cerveja gelada, um costume originado dos meus antepassados sul-americanos. Subi na canoa, remei até o centro do lago onde a água era escura e não muito profunda, preparei o equipamento e lancei o anzol. Particularmente pesco apenas com anzol para dar ao peixe a oportunidade da decisão e optar entre morder ou não a isca, capturando apenas os mais desatentos, para não contrariar Darwin e seus estudos sobre a seleção natural das espécies. Assim como para os humanos, o estado esperto nos peixes tem que ser um tremendo vórtice, um vir-a-ser.

 
Satisfatoriamente o dia não estava para peixes, talvez um sinal de que eles estavam um passo a minha frente. A cerveja se encontrava no final, já apresentando sobre mim os primeiros sintomas de embriaguez e o sol que já queria me castigar. Depois de muita insistência, fui surpreendido por uma leve pressão que movimentou minha linha, despertando um calafrio no estômago e minha atenção. Um salto furioso tensionou a linha projetando meu corpo para a beira da embarcação, quase me arremessando para a água gelada, vem à tona a imagem magnífica de um bagre enorme, com bigodes presos às suas também enormes mandíbulas.
 
Lembro que na infância meu pai sempre tagarelava sobre a lenda de um grande bagre azul, chamado Marechal devido seu porte robusto. Todos pleiteavam sua captura, mas semelhantemente ao monstro do lago Ness lá nas terras altas da Escócia, não passava de uma lenda e a credibilidade das testemunhas oculares era sempre posta em questão. Mas eu o vi, se não fosse este o Marechal não poderia ser outro, e ele estava na outra ponta da minha linha. Subitamente o efeito do álcool foi reduzido devido ao nível de adrenalina disperso em meu sangue. Permaneci imóvel, estático, com as mãos tão firmes como o cipó da goiabeira. Soltava e puxava o carretel, pensei tê-lo perdido por duas ou três vezes, mas ele continuava lá testando minha força e paciência.
 
Fixado como uma estava sobre a velha barca de madeira, estava o palco da minha luta com o bagre e a dele comigo, agora era uma questão de honra e mérito. Sentia que estávamos nos cansando e o sol agora já era uma penitência castigava. Não poderia perdê-lo de modo algum, aquele bagre representava as melhores lembranças que tive com meu pai, anos de histórias e lendas durante as noites no campo.
 
Depois de duas horas meu antebraço estava fervilhando de ácido lático, provocando uma dor na linha divisória entre o suportável e insuportável. Cogitei abandonar a briga, só não o fiz pois o bagre estava tão cansado quanto eu.
 
Puxei o carretel com força e senti seu corpo bater na base da barca várias vezes. Senti sua fúria, seu sangue fervilhava de ódio eu sabia disso. Eram seus últimos suspiros antes de perder a pujança. A tensão na linha foi reduzida e com muito sufoco consegui trazê-lo para a superfície. Era realmente enorme, no vilarejo eu seria a lenda, meu falecido pai teria orgulho. Mas vendo-o ali ao meu lado, mesmo muito grande, parecia frágil, movimentando-se muito pouco e com suas brânquias dilatando e contraindo rapidamente, um sinal da falta de oxigênio. Dizem por aí que a morte mais dolorosa do mundo é a morte de um peixe.
 
O que eu iria fazer com ele afinal? Tirar alguma foto, mostrar para todos, dividir sua carne numa ceia saborosa? Seria uma desonra à majestade daquela espécie e à lembrança do meu pai. Comê-lo seria enterrar ainda mais meu pai dentro de mim, não poderia fazê-lo.
 
Soltei Marechal na base da linha d'água, vi que ele mal se movia, porém claramente estava vivo. Lentamente ele se retirou escorregadio das minhas mãos, girou seu corpo pondo-se de frente para mim, me encarou estaticamente e disse: "devolva minha orelha esquerda".

3 comentários:

  1. Raiva, dó, alívio, raiva...
    (Posso contar essa história na rádio?)

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  2. Estou tão extasiada que respirar tornou-se custoso, parece restar poucos átomos de oxigênio no quarto.

    O maior elogio que posso lhe fazer é: está digna de Seymour.
    E lhe é merecido.

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  3. Obrigado as duas.

    Aglacy, uma honra seria. Pode ser que esse seja o máximo que minhas ambições literárias cheguem, merece um registro, rs.

    Anônima, sei quem é Seymour (para você) e isso é excitante.

    Vale lembrar que nem de longe considero um dos meus melhores (se é que tem algum bom.

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