Diferentemente do voyeurismo, onde existe um agente observador de facetas erotizadas afim da auto-satisfação sexual, O Bunda não focava no erótico, na verdade achava infortúnio encontrar indivíduos copulando quando circulava os prédios vizinhos com seus binóculos. Ele era minucioso, buscava movimentos e sons que pudesse comparar. Não queria ver ação, apenas situações habituais. Nas praças, bares, corredores, se aproximava sempre dos fumantes. Apesar de nunca ter fumado, acreditava que esses eram mais interessantes de serem observados.
No carro, ao acionar o pisca-alerta para entrar na curva seus olhos automaticamente buscam outros carros que entrarão nessa mesma curva, seu grande desejo é visualizar a coincidência entre as luzes piscando. Nunca conseguiu essa façanha e jamais conseguirá. Do mesmo modo ocorre quando observa vaga-lumes. Quando entrou na universidade, prestava atenção nos sons das catracas de acesso, porém, para sua infelicidade os bips não possuíam a mesma nota, havia uma variação singela que dava a impressão de desafinação. A busca pela sincronia é seu vórtice. Era tão exigente que, não só ignorava como repudiava as danças, saltos em dupla, nados sincronizados e etc, nada era perfeito o bastante, e além disso havia treinamento, não era natural.
A idade foi passando e O Bunda passou a encolher. Tamanho seu fascínio em observar tudo sem ser observado, seu corpo começou a atrofiar. Era fantástico. Ele passou a entrar nos cantos mais escuros, espreitando tudo, registrando tudo com sua memória e ninguém o via. Sincronia, sincronia, sincronia... Nada.
O Bunda passou a invadir casas e observar tudo, ninguém nunca o viu e O Bunda continuava a encolher. Passou a se esconder em armários, mais tarde em gavetas, sempre à espreita nunca desistiu, nunca foi pego. Cada vez em lugares mais incomuns e inimagináveis O Bunda se abrigava ocultamente. Sincronia, sincronia, sincronia.... Nada.
Em copos, estojos escolares, caixas de fósforo e nada. Nos rejuntamentos de pisos, circuitos dos eletrodomésticos e nada. Passou a ter o tamanho de formiga e se abrigava em couros cabeludos. Diminuiu ainda mais, observava tudo dos poros dos humanos, escolhia a melhor visão e se alojava.
O Bunda se tornou unicelular, seu campo de visão era amplo e ainda buscava a sincronia. Entrou na circulação de um sujeito e finalmente, depois de anos, O Bunda encontra a perfeita sincronia ao ser expelido por um cú. O Bunda morre feliz.

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