segunda-feira, 13 de junho de 2011

Esse tal de Tao

Não sou um estudioso da taoísmo, mas se me permite senhor leitor, vou divagar um pouco sobre ele e os ensinamentos de Lao Tsé.




Uma viagem de mil léguas começa com o primeiro passo.

Intuitivamente os caminhos são formados. Assim como não adianta reger contra as leis da natureza, domina-se o mundo aquele que deixa as coisas seguirem o seu curso e não interfere sobre ele. É tornar o vento o senhor do destino das dez mil coisas e daquelas outras cujo o nome não existe.

O buscar acaba sendo o não buscar. Não se pode explicar o que não pode ser explicado. Quando os olhos estão fechados e subitamente são abertos a primeira fração de tempo ainda não definiu o assunto. Não se sabe ao certo se é um azul, um amarelo, um círculo, uma nuvem, nem nada, é quando a atividade mental encontra-se na perspectiva adequada para se chegar a uma fonte mais profunda que guie a interação da pessoa com o universo. Trocando em miúdos, o desejo obstrui a habilidade pessoal de compreender o mundo. Da cabeça aos pés somos feitos de desejos e quando um destes é satisfeito, outro, mais ambicioso, brota para substituí-lo. Desse modo não deveríamos desejar nada e tampouco desejar não desejar.

Toda essa essência baseada no agir pelo não agir pode ser interpretada erroneamente de modo que não fazer nada seria a chave. O fato de escolher não fazer nada já representa fazer alguma coisa. O que ocorre é que a influência de suas interações no mundo pode ser muito mais produtiva se usar a sutileza e serenidade invés da força. A progressão de uma pessoa no leito de um rio é mais eficiente se estiver a favor da correnteza, quieto, imóvel, ao contrário de se debater contra a força da água. Para fritar um peixe pequeno, por exemplo, não é preciso virá-lo, apenas deixar que o calor o consuma por completo.

Implicitamente pode-se inferir esse esboço de uma filosofia na anarquia. Uma palavra provocante tendo em vista um quadro histórico de lutas entre sistemas socioeconômicos, definido pelos Cidadãos Kanes do globo o que é o certo e o que é o errado, marginalizando conceitos, que mais tarde marginalizaram pessoas e suas ações. A idéia de um governo não condiz com o conceito da igualdade, um representante com um poder – seja do ponto de vista político, ou outro qualquer – não é o mesmo que um com não poder. Alguém controlar essas coisas é como um chef ficar virando o peixe pequeno na frigideira.

Sucintamente pode-se refletir partindo do seguinte princípio: o design humano foi projetado e perfeitamente ajustado para nosso lugar na natureza, isto é, confiar nela em vez da nossa racionalidade. Pode ser o caminho para o contentamento a ausência da luta constante contra as correntezas – as forças reais e forças imaginárias.

Se acreditas numa doutrina não convença seu semelhante, tampouco apele, pois não há o que é certo ou o que é errado, isso é remar contra a maré e será em vão. Simplesmente manifeste suas crenças em suas atitudes, assumindo total responsabilidade pela movimento em que acreditas.



Cap. 40 de Tao Te Ching (O Livro do Caminho e Sua Virtude), de Lao Tsé

Trinta raios convergem para o meio de uma roda
Mas é o buraco em que vai entrar o eixo que a torna útil.
Molda-se o barro para fazer um vaso;
É o espaço dentro dele que o torna útil.
Fazem-se portas e janelas para um quarto;
São os buracos que o tornam útil.


Por isso, a vantagem do que está lá
Assenta exclusivamente
na utilidade do que lá não está

Assumindo total responsabilidade, mostro agora uma composição de Paulinho da Viola, onde vejo o Tao  presente.

Timoneiro
Composição: Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho


Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar

E quanto mais remo mais rezo
Pra nunca mais se acabar
Essa viagem que faz
O mar em torno do mar
Meu velho um dia falou
Com seu jeito de avisar:
- Olha, o mar não tem cabelos
Que a gente possa agarrar

Timoneiro nunca fui
Que eu não sou de velejar
O leme da minha vida
Deus é quem faz governar
E quando alguém me pergunta
Como se faz pra nadar
Explico que eu não navego
Quem me navega é o mar

A rede do meu destino
Parece a de um pescador
Quando retorna vazia
Vem carregada de dor
Vivo num redemoinho
Deus bem sabe o que ele faz
A onda que me carrega
Ela mesma é quem me traz

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