A lua entrou sem pedir licença. Esta noite será decisiva para Amaral, afinal de contas o baile se aproxima e terá que passar na casa de Cecília, sob a supervisão Agostino, o pai da moça, e conduzi-la até o salão. Amaral não sabe dançar e revela em seus pensamentos mais profundos um encantamento pela jovem. O que as próximas horas guardam?
Amaral martela o tempo com o pé direito, pensando nos contratempos possíveis, na condução, nos passos, na posição das mãos. Seu coração disparava nas taquicardias repentinas, suas mãos suadas também expõe seu nervosismo. “Será um fracasso, Amaral”, uma voz tremulava repetidamente na sua cabeça. Mas não tinha volta. Só se sabe o gosto doce do mel porque alguém experimentou. Amaral vai até o fim, definitivamente.
Em passos lentos se aproxima da porta e bate no número 502. Três batidas: toc toc toc. Olha desesperadamente para o relógio enquanto espera uma resposta. Ouve passos se aproximando por trás da porta. Agostino abre a porta, convida seriamente Amaral para entrar e sentar-se na sala principal da sala para esperar por Cecília. Ele entra, senta, circula os olhos no ambiente. O silêncio constrangedor domina a atmosfera. Por duas vezes cogitou puxar assunto com Agostino, mas não queria perder tempo falando do tempo ou do clima para os próximos dias, preferiu aguardar silenciosamente.
Finalmente ouve os passos de Cecília descendo as escadas. A taquicardia volta, o suor reaparece, desta vez dominando mais partes do corpo além das mãos. Inclina seu tronco e visualiza ela, esbelta, e uma paz domina seu semblante.
- Boa noite Amaral, desculpa a demora. Vamos?
Cada minuto de espera foi recompensado, esperaria por horas se fosse preciso.
Saíram silenciosamente sob passos ritmados, olharam um para o outro e sorriram com o canto da boca. Amaral puxa do bolso interno de seu paletó um pequeno punhado de flor de Ypê Amarelo, Cecília ri – ela ama flores, especialmente o Ypê por ser tão robusto e esplendoroso quando florido – segura o punhado com a mão esquerda e com a direita segura a mão de Amaral. Internamente Amaral grita e chacoalha sua cabeleira penteada, mas resume sua excitação beijando a face da mão dela. No fundo, caro leitor, você sabe como isso é legal.
A orquestra já havia iniciado as canções e Cecília não escondeu o desejo de dançar. Amaral sente um pouco de pavor, mas também se sente livre e revela seu íntimo.
Ela entendeu e o conduziu na valsa. Mesmo sem jeito, acreditou. Cada vez que girava, sua perna sentia uma agonia, mas de passo em passo que dava enchia o peito de esperança. Amaral gostaria de congelar o tempo, tudo em seu campo de visão havia sumido, a não ser o salão, ele e Cecília.
“Só sei dançar com você, isso é o que o amor faz”, outra vez titubeou a voz em sua mente.
Raros são aqueles que têm o amar até no nome.

Estou precisando de um novo caderno (verde de preferência). Me compra um?
ResponderExcluirMuito Bom... Você realmente é muito bom com as palavras. Esses versos também de uma música da tiê. lembro até de quando baixamos o cd de tiê, e passamos muito tempo ouvindo até enjoar. rsrs.
ResponderExcluir