Deitados ao chão, num parque, Lucy cogita:
- Não são lindas as nuvens? Parecem bolas enormes de algodão. Eu podia ficar aqui o dia inteiro observando elas se mexerem. Se a gente usar a imaginação, ver uma porção de coisas nos formatos das nuvens. O que é que você acha que vê Linus?
- Bem, aquelas nuvens lá em cima parecem o mapa das Honduras Britânicas lá no Caribe. Aquela nuvem ali me lembra um pouco O Pensador de Rodan, aquela famosa escultura. E aquelas nuvens lá em cima, me fazem lembrar as ruínas do Barguenan e eu vejo o apóstolo Paulo de pé lá do outro lado.
- É. Isso é bonito. E o que é que você vê nas nuvens, Charlie Brown?
- Bem... Eu ia dizer que vi um patinho ou um cavalinho, mas mudei de idéia.
Esse é o nosso Charlie Brown, figura singular deste planeta. Criado por Charles M. Schulz em meados dos anos 50, a turma do Peanuts, pra mim, é uma das obras mais expressivas e uma das que mais me traduzem. O Charlie tem uma personalidade e alma impressionante. Ao mesmo tempo em que o garoto parece sofrer com uma velhice precoce, tem traços de uma infância bem resolvida e vivida.
Esse trecho inicial retirei do longa chamado “Um Garoto Chamado Charlie Brown”. Além de toda a qualidade e poesia que Charlie Brown aspira, há ainda a trilha sonora. Jazz! Isso mesmo, toda a trilha sob a responsabilidade do saudoso Vinci Guaraldi.
Admiro o Charlie devido sua complexa personalidade para uma animação, tiras e afins. Apesar de toda a frustração que esse garoto tem, ainda sobra espaço para o humor, brincadeiras e perseverança de um grande humano. O Charlie é muito mais humano que muito humano.
Quando eu crescer quero ser o Charlie Brown.
É claro que não falei o suficiente, mas acho que até você foi capaz de me entender. Então tá bom.
Passei um tempão sem escrever, ou algo parecido, por que estava absolutamente debilitado. Minha velhice precoce vai além da personalidade e do modo de ver a vida. Tenho medo. Mas vai ser preciso muito mais pra me derrubar, porque embora eu seja um desacreditado, ainda sim sou um bom vivedor.
Uma coisa diferente aconteceu. Poderia ser muito mais. Mas muito mais mesmo!!!
Devido o meu estado de saúde, tive que voltar ao aconchego do lar e nesse meio tempo, uns parentes precisaram do apartamento aqui na capital. Como disse, eu estava no aconchego do lar. O Alan, nesta semana, estava preocupado demais como um poeta louco americano e não apareceu por lá. O outro tinha um congresso em outro estado, enfim. Só estavam meus parentes.
Eu deixei bem claro que tudo que tinha lá era permitido o uso sem justificativas. E hoje, quando chego, me deparo com uma carta e quatro reais à amostra em baixo do jarro formado por flores descaradamente artificiais (não sei como esse jarro apareceu lá, mas ele me faz comprovar que Deus existe e por isso nunca o tiro de lá. Afinal de contas, é a única conclusão que se pode chegar ao comparar as flores naturais com estas. Eu não posso chamar de cópia ou imitação. Não consigo encontrar outra expressão que transcreva essa coisa, exceto os sinônimos de “descaradamente artificial”. E vendo isso, eu penso que se alguém consegue vender uma coisa dessas, eu posso ir muito mais longe).
Transcrevendo a carta:
Jorgin, estou deixando R$ 4,00 para repor a água. Não compre porque ainda tem um pouco no garrafão.
Seu tio Alberto.
Obs: tem um pacote de açúcar que eu trouxe aberto na porta da geladeira.
Isso me fez transbordar de alegria. Não por causa do dinheiro da água, ou por causa da cuidadosa
observação, mas pelo afeto que está nas entrelinhas. É comovente. De certo, me fez rir (o que é relativamente raro) e preencher meus olhos com um líquido salgado e incomum para mim.
Realmente, para achar isso brilhante e de amabilidade curiosa só eu, infelizmente. Bizarro para a maioria, provavelmente. Essa carta, como coisas bestas que vejo por aí me inspiram e fazem pensar que o mundo tem solução (por um instante somente).
É comovente demais, parece patético, mas eu não estou te obrigando a ler.
Tem duas ocorrências que vi em ônibus e que já fazem mais de 6 meses, mas custo esquecê-las e não quero.
Uma e a mais marcante foi um senhor com seus 65 anos aproximadamente e um provável neto, que já carregava uns 8 anos. Estavam do meu lado. E como eu não tinha nada de importante para fazer no ônibus eu abaixei o volume ao mínimo do mp4, olhei fixamente para a frente e me pus a prestar toda atenção que poderia prestar depois de um dia exaustivo, assim como os outros. Não consigo lembrar do conteúdo da conversa e tampouco seria significante. O que pude aspirar foi a conversa em si. A comunicação entre os dois era deslumbrante. Me deixou rigorosamente estático. A diferença aparente de 57 anos não dizia nada. Conversavam no mesmo plano, como se fossem duas pessoas e uma só alma. Os humanos, eles podem ser tão brilhantes. O que é uma pena é como eles são incompreensivelmente cegos e não conseguem notar o que são capazes de fazer sem o mínimo esforço.
Por isso e por outras coisas afirmo convictamente que não sou humano, embora tenha nascido (aparentemente) neste planeta.
Agora me sinto estranhamente feliz e não quero estragar isso por nada. Vou parar por aqui, antes que seja tarde.
Calorosamente abaixo de toda essa tempestade e dois edredons,
Jorgin, O Maneiro.
PS: agora consegui relacionar de alguma forma desconhecida esse meu estranho dia para se ter alegria, com Jorge Ben. Talvez por que ele nunca fez uma composição que não seja alegre. Não sei ao certo.
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