segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Cem Anos de Solidão

Dona Lalinha não sabia mais o que fazer. Elias Prudente nunca deixava as coisas no lugar certo, trocava tudo de posição. Lá em seu pensionato, naquela semana depois que Elias e Selena confirmaram o romance, notou que ele estava com a cabeça a mil, todo confuso com as coisas ao seu redor e confundindo tudo mais ainda. Não sabia que espécie de delírio era aquele e nem como abordar o jovem para tomar caso da situação, pois realmente naquele pensionato estava tudo de ponta cabeça.


Na verdade, não se passava de um mal entendido de Dona Lalinha. Elias Prudente só estava meio desatento e um pouco paranóico com as mudanças de sua vida. Sem perceber e sem intenção alguma, saía substituindo as coisas de lugar, sendo que sempre em uma de suas mãos havia no mínimo um objeto preso aos seus dedos. Objetos comuns, mas estranhamente localizados. Naquele dia Elias Prudente saiu do seu quarto segurando uma escova de dente e se dirigiu até a cozinha. Abriu a geladeira, pegou um vaso de água e deixou a escova no lugar dele. Foi até ao armário com copos, encheu um deles para beber e deixou o vaso no lugar dos copos. Entrou no banheiro ainda com o copo na mão e saiu de lá segurando o condicionador, evidentemente deixando o copo na posição do sabonete, o sabonete na do shampo e esse último no lugar do condicionador. Foi trocar de roupa deixando as sujas no lugar das limpas, a toalha no lugar do pente e saiu do quarto com segurando este último. Depois de uma semana o pensionato de Dona Lalinha estava revirado. Havia chaves de fenda no lugar dos talheres, talher no lugar do controle remoto, controle remoto na caixa de ferramentas e etc.

O fato é que Dona Lalinha, em quase vinte anos de pensionato, jamais destratou nenhum de seus inquilinos e que Elias Prudente para ela não se enquadrava mais nessa classificação. Apesar do relativo curto período de convivência, Elias Prudente deu vida à velha senhora solitária, se tornou quase o filho que ela nunca teve. O sobrado cinzento havia tomado uma vida própria, até mesmo por estar sempre de pernas para o ar. O ar estava rejuvenescido, com um cheiro de terra molhada, as paredes com as pinturas descascadas tomaram cores novas por iniciativa de Elias e aqueles cômodos guardavam agora pendurado por pregos, dois quadros com pinturas de um artista estanciano e um LP Alucinação de Belchior emoldurado. Era, definitivamente, outro lugar. E Dona Lalinha era definitivamente outra pessoa, não mais aquela senhora cujo espírito neutro, morno e cinza consumia o resto dos anos que seguiam.
O alvoroço de Elias e a inquietude de Dona Lalinha estavam com os dias contados já que o jovem decidiu seguir uns amigos bolivianos até as terras banhadas pelo pacífico, lá no Chile. Não havia um propósito específico, essa é uma peculiaridade de Elias, apenas experimentar tudo aquilo que pode ser experimentado. Foi duro se despedir de Selena, mas não impossível. Selena era a mulher de sua vida e ele o homem da vida dela, mas Elias é incapaz de ser constate, seu vórtice central definidor dos caminhos é impulsivo e autoritário, não havia outra opção a não ser seguir com a promessa de um dia voltar, assim mesmo, num tempo indeterminado. Deixou com Selena o livro Cem Anos de Solidão de Gabriel García Márquez, na contracapa uma dedicatória intrigante com a última sentença do livro: “...por que as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra”. A moça segurou firme a obra, chorou um pouco sobre seu cangote sentindo pela última vez seu cheiro abarrotado de vida e deu um último beijo. Não disse uma palavra sequer. Quando deu as costas andou seis passos, parou um pouco e virou o seu corpo magro, mirou seus olhos grandes e negros nos olhos de Elias Prudente, sorriu levemente e voltou para o seu caminho. Elias prudente entendeu com facilidade aquele gesto sincero:

– Eu também – falou calmamente retribuindo o sorriso e os olhos úmidos. Aquele olhar era o mais realista de todos os “eu te amo” que alguém jamais dissera e no leito de sua morte vai lembrar também que foi o único da sua vida.
Selena não tremulou, andou firmemente com passos invariáveis e cabeça erguida. Jurou pela sua alma que só terminaria de ler aquele livro quando visse Elias Prudente novamente, de modo que no início lia um parágrafo diariamente, depois passou a ler uma frase por dia, depois uma palavra e por fim uma sílaba. Morreu jovem, linda, coração cheio de esperanças, mas jamais soube o desfecho da família Buendía.

À primeira vista Dona Lalinha não sentiu nada quando Elias se despediu, até agradeceu um pouco a Deus porque finalmente conseguiria colocar as coisas em seu devido lugar. Com o passar dos dias, o pensionato ficou tinindo, um brinco, tudo em ordem. Mas apesar de terem várias outras pessoas morando lá, ficou vazio. Dona Lalinha voltou a ser aquele ser neutro com recusa de envelhecer. O pensionato mesmo com todos os cuidados, parecia abandonado. Quanto mais Dona Lalinha limpava tudo, as teias de aranha insistiam em aparecer sobre o jardim e os cantos dos cômodos, a poeira entrava mesmo com a porta trancada, a tinta da parede se espedaçava velozmente, nos dias de chuva mais e mais goteiras surgiam, as roseiras insistiam em morrer apesar de ter diariamente boa terra adubada e água. Nos dias de maiores agonias cantava sozinha as músicas do rei Roberto Carlos e depois passou a cantar eternamente, cada vez mais baixo e mais baixo e mais baixo, até o dia em que seu último suspiro saiu com o refrão de uma de suas canções do tempo da jovem guarda.
Elias Prudente do Chile percorreu outros países latinos chegando até o México e depois voltou, sempre acompanhado, mas solitário. Tentou vender sua alma ao diabo a fim de assumir a vitória sobre as forças que controlam seu temperamento neologista e voltar para os braços de Selena, mas esta já havia morrido. Se transformou numa sombra magra, velha, rancorosa, flácida, pálida, indigente e sozinha porque recusou o amor da sua vida. Morreu seu pestanejar, já tinha escolhido seu réquiem, seu concerto fúnebre e torcia para chegar o quanto antes esse dia. Seu leito era apenas a amargurada entregue aos seus cem anos de solidão e a memória de quando Selena disse “eu te amo” sem pronunciar uma palavra.

3 comentários:

  1. Particularmente meu melhor conto e o mais demorado, cheio de mudanças desde sua finalização há mais de um mês. Estava guardado há algumas semanas sem saber se publicaria ou não, mas está aí.
    Confesso que é muito divertido escrever, além de ser um bom exercício mental, mas o fato de ser uma atividade por natureza solitária me incomada. Alan Lima.

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  2. ô solidão da porra
    amargo, dá cachaça pra nóis, dá um belchior q é pra dor ficar bem ruim
    levantar e lutar todos os dias por uma causa ou uma aventura qualquer com um propósito mal esclarecido

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  3. Porra, Alan... :x

    esse bateu fundo aqui, cara.

    Parabéns, cabra. Lindo! Fantástico!

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