Aquele foi o pior dia de sua vida.
Antônio, mais conhecido como Tonho Cabeleira, possuía um vasto aglomerado de fios castanhos sobre a sua cabeça. Cuidava deles como um aquariofilista experiente cuida de um cardume de peixes discus adultos, com toda a cautela possível.
Vários são os parâmetros que adotava em si tratar de qualificar e caracterizar seus cabelos. Tonho Cabeleira dormia com a cabeça pendurada pelo pescoço, utilizando um equipamento que ele mesmo criou para não danificar as estruturas capilares, curiosamente chamado de Fio. Pela manhã contava os fios que caiam naturalmente, deduzia fórmulas matemáticas por meio de derivadas para calcular as taxas de perda em relação a cada estação do ano. Traçou a árvore genealógica da família há cerca de dez anos atrás, a fim de identificar possíveis falhas genéticas hereditárias relacionadas à calvície. Não fumava, não bebia, consumia muita proteína, não se estressava. Sanção era fichinha para a excentricidade deste aquariano.
Naturalmente toda essa cautela provocava preocupação. Havia algo de errado em suas fórmulas, elas não expressavam a realidade porque existem muito mais variáveis do que as que ele usava. Ele não percebeu, mas sua vasta cabeleira estava por um fio.
Todos notavam o a perca de fios no topo da sua nuca, mas ninguém tinha coragem revelar. O próprio subconsciente de Tonho Cabeleira notou, mas como Narciso acha estranho tudo aquilo que não é espelho, seu racionalismo deixou passar já que os números sempre foram otimistas.
Acordou cedo, tomou banho, utilizou seu arsenal de xampus, condicionadores, cremes e loções. Secou, penteou, ajeitou pra lá, ajeitou pra cá. Colocou a roupa, tomou o café da manhã. Olhou o calendário e se excitou. Aquele era o dia do corte de cabelo semestral, que na verdade não passava de uma simples aparagem. Viajou para a capital, até o melhor cabeleireiro da redondeza. Embora seu horário previamente marcado fora no meio tarde, fez questão de chegar duas horas antecipadamente.
Sentou na sala de espera, esperou e esperou. Enfim foi chamado para sua vez, provocando uma taquicardia ao ouvir o seu nome. Cumprimentou o profissional gabaritado, passou todas as instruções detalhadamente, tim-tim por tim-tim. O profissional utilizou seus melhores equipamentos e produtos, suas melhores técnicas, cumpriu com rigor todos os procedimentos definidos por Tonho Cabeleira. Pegou um espelho móvel a fim de exibir todo o resultado de sua performance, pois o iluminado espelho principal trazia apenas a imagem frontal. Ao mover a peça espelhada na direção do topo do crânio, Tonho entrou em pânico. Uma clareira brilhante e amarelada sorriu para ele como um smile.
Naquele mesmo dia Tonho Cabeleira morre pelo seu próprio Fio.

que trash, velho
ResponderExcluirhahaha
mas tá bem legal
Nossa, que trágico. Não sei como você consegue fazer de algo tão simples, toda essa complexidade.
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